Assobiariam os ventos que uma mulher transgredira à inferioridade natural se eu, antes de sucumbir à morte, descobrisse como sair deste buraco; é gigantesco,
e, ao mesmo tempo, tão pequeno. Faz muito frio. Neste inóspito
lugar, a terra envolve-me, momentaneamente, em um aquecer que logo se
despe, ao soprar dos ventos que penetram por entre as beiradas da
enorme pedra que me prende. Ergo o braço, mais um vez, tentando
empurrar o obstáculo rochoso. Impossível.
Rafael
descobrira, ainda no verão, minha relação com Leonardo. Fora o fim
de nosso sonho e o início de meu pesadelo: recebia, incessantemente,
ligações; minha casa, a certa vez, fora depredada e mal sabia eu
que o autor daquilo tudo era ninguém menos que meu ex-marido. De
nada adiantou as denúncias que fiz porque, depois de dias a pensar
que as ameaças tiveram fim, aquele louco entrou em minha casa, atou
meus braços e minha perna e, abruptamente, estuprou-me. Não pude
reter o nojo que senti ao ser tocada por aquele homem que dissera me
amar e, naquele dia, machucava-me. De minha boca saíram coágulos de
sangue envolvidos por restos alimentares que escorriam, devagar, pelo
meio queixo, passando por meu peito, até chegar ao chão. Irritado,
Rafael proferiu três socos em meu rosto e, já não suportando,
desmaiei.
Fui
do claro ao escuro. Não vejo nada há dias. Minha sensação é de
que tiraram-me os olhos, porque não faço idéia de onde estou,
somente sinto os objetos com minhas mãos, já calosas, que cheiram a
uma mistura de terra e sangue. Há pouco, ouvi um barulho atordoante;
parecia ter vindo de outro lugar, talvez de fora, não faço idéia.
Chove, pois já posso sentir a terra molhada grudar em minha pele,
por entre os dedos dos pés. Sinto-me Antígona, relegada a morrer
pela única fraqueza que me possui: a de ser mulher.

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