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sexta-feira, 10 de maio de 2013

Do claro ao escuro

         Assobiariam os ventos que uma mulher transgredira à inferioridade natural se eu, antes de sucumbir à morte, descobrisse como sair deste buraco; é gigantesco, e, ao mesmo tempo, tão pequeno. Faz muito frio. Neste inóspito lugar, a terra envolve-me, momentaneamente, em um aquecer que logo se despe, ao soprar dos ventos que penetram por entre as beiradas da enorme pedra que me prende. Ergo o braço, mais um vez, tentando empurrar o obstáculo rochoso. Impossível.
Rafael descobrira, ainda no verão, minha relação com Leonardo. Fora o fim de nosso sonho e o início de meu pesadelo: recebia, incessantemente, ligações; minha casa, a certa vez, fora depredada e mal sabia eu que o autor daquilo tudo era ninguém menos que meu ex-marido. De nada adiantou as denúncias que fiz porque, depois de dias a pensar que as ameaças tiveram fim, aquele louco entrou em minha casa, atou meus braços e minha perna e, abruptamente, estuprou-me. Não pude reter o nojo que senti ao ser tocada por aquele homem que dissera me amar e, naquele dia, machucava-me. De minha boca saíram coágulos de sangue envolvidos por restos alimentares que escorriam, devagar, pelo meio queixo, passando por meu peito, até chegar ao chão. Irritado, Rafael proferiu três socos em meu rosto e, já não suportando, desmaiei.
Fui do claro ao escuro. Não vejo nada há dias. Minha sensação é de que tiraram-me os olhos, porque não faço idéia de onde estou, somente sinto os objetos com minhas mãos, já calosas, que cheiram a uma mistura de terra e sangue. Há pouco, ouvi um barulho atordoante; parecia ter vindo de outro lugar, talvez de fora, não faço idéia. Chove, pois já posso sentir a terra molhada grudar em minha pele, por entre os dedos dos pés. Sinto-me Antígona, relegada a morrer pela única fraqueza que me possui: a de ser mulher.


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“Via-se perfeitamente que estava viva pelo piscar constante dos olhos grandes, pelo peito magro que se levantava e abaixava em respiração talvez difícil. Mas quem sabe se ela não estaria precisando de morrer? Pois há momentos em que a pessoa está precisando de uma pequena mortezinha e sem nem ao menos saber. Quanto a mim,substituo o ato da morte por um seu símbolo. Símbolo este que pode se resumir num profundo beijo mas não na parede áspera e sim boca-a-boca na agonia do prazer que é a morte.”

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