"Ela parece uma árvore frutífera - uma cerejeira em flor", disse ele, olhando para uma mulher ainda moça com um belo cabelo branco. Era uma imagem de tipo primoroso, pensou Ruth Anning - sim, um primor porém ela não tinha certeza de estar gostando desse homem distinto, melancólico, com seus gestos; e é curioso, pensou ela, como os nossos sentimentos são influenciados. Não gostava dele, mas reconhecia ter gostado da comparação da mulher com a cerejeira que foi feita por ele. Fibras dela, sem rumo fixo, em flutuação caprichosa, como tentáculos de uma anêmona-do-mar, ora vibravam, ora de repuxavam, e o seu cérebro, a quilômetros dali, frio e distante, suspenso no ar, recebia mensagens que processaria a tempo de, quando as pessoas pessoas falassem de Roderick Serle (e ele era uma figura e tanto), ela poder dizer sem hesitar: "Gosto dele", ou "Não gosto dele", e assim ter definida sua opinião para sempre. Uma idéia estranha; lançando uma luz insólita sobre a composição da sociabilidade humana."
sábado, 2 de junho de 2012
quarta-feira, 30 de maio de 2012
Adeus
Sob as águas da vida
um Sol que partia,
que se punha ao olhar
de quem o amava.
E se ocultava,
da forma mais pura,
dando vez à lua
sem o adeus da despedida.
um Sol que partia,
que se punha ao olhar
de quem o amava.
E se ocultava,
da forma mais pura,
dando vez à lua
sem o adeus da despedida.
terça-feira, 29 de maio de 2012
A descoberta do mundo - Clarice Lispector
O que eu quero contar é tão delicado quanto a própria vida. E eu queria poder usar delicadeza que também tenho em mim, ao lado da grossura de camponesa que é o que me salva.
Quando criança, e depois adolescente, fui precoce em muitas coisas. Em sentir um ambiente, por exemplo, em aprender a atmosfera íntima de uma pessoa. Por outro lado, longe de precoce , estava em incrível atraso em relação a outras coisas importantes. Continuo aliás atrasada em muitos terrenos. Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais.
Até mais que treze anos, por exemplo, eu estava em atraso quanto ao que os americanos chamam de fatos da vida. Essa expressão se refere à relação profunda de amor entre um homem e uma mulher, da qual nascem os filhos. Ou será que eu adivinhava mas turvava minha possibilidade de lucidez para poder, sem me escandalizar comigo mesmo, continuar em inocência a me enfeitar para os meninos? Enfeitar-me aos onze anos de idade consistia em lavar o rosto tantas vezes até que a pele esticada brilhasse. Eu me sentia pronta, então. Seria minha ignorância um modo sonso e inconsciente de me manter ingênua para poder continuar, sem culpa, a pensar nos meninos? Acredito que sim. Porque eu sempre soube coisas que nem eu mesma sei que sei.
As minhas colegas de ginásio sabiam de tudo e inclusive contavam anedotas a respeito. Eu não entendia mas fingia compreender para que elas não me desprezassem e à minha ignorância.
Enquanto isso, sem saber da realidade, continuava por puro instinto a flertar com os meninos que me agradavam, a pensar neles. Meu instinto precedera a minha inteligência.
Até que um dia, já passados os treze anos, como se só então eu me sentisse madura para receber alguma realidade que me chocasse, contei a uma amiga íntima o meu segredo: que eu era ignorante e fingira de sabida. Ela mal acreditou, tão bem eu havia fingido. Mas terminou sentindo minha sinceridade e ela própria encarregou-se ali mesmo na esquina de me esclarecer o mistério da vida. Só que também ela era um amenina e não soube falar de um modo que não ferisse a minha sensibilidade de então. Fiquei paralisada olhando para ela, misturando perplexidade, terror, indignação, inocência mortalmente ferida. Mentalmente eu gaguejava: mas por quê? Mas por quê? O choque foi tão grande – e por uns meses traumatizante – que ali mesmo na esquina jurei alto que nunca iria me casar.
Embora meses depois esquecesse o juramento e continuasse com meus pequenos namoros.
Depois, com o decorrer de mais tempo, em vez de me sentir escandalizada pelo modo como uma mulher e um homem se unem, passei a achar esse modo de uma grande perfeição. E também de grande delicadeza. Já então eu me transformara numa mocinha alta, pensativa, rebelde, tudo misturado a bastante selvageria e muita timidez.
Antes de me reconciliar com o processo da vida, no entanto, sofri muito, o que poderia ter sido evitado se um adulto responsável se tivesse encarregado de me contar como era o amo. Esse adulto saberia como lidar com uma alma infantil sem martirizá-la com a surpresa, sem obrigá-la a ter toda sozinha que se refazer para de novo aceitar a vida e os seus mistérios.
Porque o mais surpreendente é que, mesmo depois de saber de tudo, o mistério continua intacto. Embora eu saiba que de uma planta brotar um flor, continuo surpreendida com os caminhos secretos da natureza. E se continuo até hoje com pudor não é porque ache vergonhoso, é pudor apenas feminino.
Pois juro que a vida é bonita.
Versos de uma manhã
Quando eu sorria, querendo que fosse,
sorvia em sonhos dos teus lábios o doce.
Amanhecia em lágrimas choradas para o nada
e clamava, em pensamentos,
poder querer estar contigo, minha amada.
Das minhas desatenções tiraste a raiva
que crescera em flor e,
como mágica.,
desabrochara em amor,
Sei que por vezes choraste
pelos olhos daquele que não te parecia sorrir.
Dele, ganhaste um não.
Deste que vos fala, ganhaste o coração.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Talvez
Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,
E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos...
E por amor
Serei... Serás...Seremos...
Pablo Neruda
domingo, 20 de maio de 2012
Asfixia
As molduras douradas arqueavam imagens desconhecidas. Figuras disformes, desconexas e, aparentemente, sem sentido. À espera de nada,
entediei-me um pouco, procurando distração em um pedaço de cordão preso a uma
almofada; passei a desfiá-lo, puxava com a ponta dos dedos um primeiro fio que encadeava a desarmonia dos outros. Ao desmanchar a quarta ponta da
almofada, Olga apareceu-me à janela, por minhas costas, assustando-me.
A poltrona ficava à frente de uma imensa janela, cuja cor verde já estava
desgastada pelo tempo. Recostado, ao perceber os dedos me apertando, senti um espantoso
calafrio, um entrechoque de sensações: meu pescoço, ainda quente por conta do
cachecol que o envolvia, chocou-se com delicados dedos de pontas frias, mãos
descobertas em pleno inverno. Não foi difícil perceber que era Olga,
evidentemente. Por vezes senti aquelas mãos acariciarem meu rosto, mesmo que
não conseguisse ao menos tocar suas mãos por medo, um medo provido de minha
essência, de uma essência que requeria confiança e, principalmente, amor
verdadeiro.
Casamo-nos no inverno, em uma igreja simples do interior de nossa cidade
natal. Decoraram-na com rosas carnudas, vermelhas, envoltas por folhas de um
verde quase artificial. Um tapete vermelho, aveludado, cobria o chão
eclesiástico da porta ao altar, onde me encontrava quando vi Olga adentrar,
recoberta por um vestido branco. Estava belíssima. Não creio tê-la visto mais
bela do que quando casamos. De maneira alguma, naqueles momentos eternizados em
minha memória, pensei que poderia algum dia recuar de seu amor.
Ignorei o ocorrido e voltei-me às almofadas. Olga olhou o que eu estava
fazendo, senti sua presença por alguns minutos, estática e pensativa, parecia
querer dizer algo, mas não conseguia, ou não tinha coragem. Quando a vi entrar
na sala, parei imediatamente de desfiar as cordas e voltei meu rosto ao dela.
Os cachos de um tom caramelo recobriam seus ombros, perpassando a pele clara e
de aspecto delicado. Seus olhos, aqueles olhos d’água cristalina, olhos que me
invitavam a mergulhar por suas profundezas, também repeliam-me, inspiravam-me
o medo de afogar. Asfixia.
O sangue parecia coagular sobre minhas mãos e, no menor toque, espalhava-se
por entre os dedos, tecendo, em minha pele, um contraste de duas cores. Vi, novamente, pinturas desconexas, imagens que pareciam, enfim, fazer sentido. Do
rosto dela brotavam rosas vermelhas como as de nosso casamento, tão
encarnadas quanto aquelas que embelezaram a cerimônia. Parei de apertar o
pescoço ao ver que o desabrochar se concluíra. Tão linda, bela, alva, parecia
sorrir imóvel, transparecendo viver mais do que se ainda tivesse.
Despertei. Como habitual, ergui as cortinas às duas extremidades,
prendendo-as a um pequeno gancho anexado à parede. Mas, ao virar para cama,
deparei-me com uma visão bárbara. Adormeci mergulhado em águas vermelhas, águas
que não afogaram a mim, mas sim a Olga, que já não enchia o peito de ar. Inflou
o tórax do líquido escarlate, secando o mar d’água cristalina, imagem ocultada,
para sempre, por duas cortinas abaixadas, por duas pálpebras sem vida.
Do sonho fez-se o real incompreensível. Colocaram-me atrás das grades e
julgaram meu destino por algo que não fiz, por imagens que pareciam restritas a
um sonho aterrorizante, mas que se exteriorizaram, de alguma forma, para o real. E, quando não mais suportei estar trancafiado por simplesmente não ter aprendido a
amar, mergulhei no mesmo mar que levara Olga. Asfixia.
Alexandre Ferreira Martins
sábado, 19 de maio de 2012
Sopro de vida
Os galhos das
árvores se retorciam em meio a emaranhados de folhas secas, prestes a cairem sobre a grama úmida. Pequenos pedaços de madeira quedavam-se ao primeiro pingar
d'água da chuva, assim como, também, caíam as primeiras folhas que comunicavam
ao mundo o fim da primavera. E, mesmo que Marina soubesse, era impossível
reverter o que a natureza inevitavelmente fazia. Em vista disso, não teria, em seus
quadros a óleo, a coloração verde sob os sutis reflexos do sol. Formava-se, na paisagem, uma atmosfera digna dos dias que transcorriam: triste.
Joana, filha de
Marina, era ainda pequena quando, pela primeira vez, sorriu ao ver uma folha
seca cair sobre o rosto da mãe. A menina se acostumou, ligeiramente, com as
mudanças de estação. Sabia, desde criança, que as pequenas mudanças causadas
pela natureza eram empecilhos às pinturas de sua mãe. Por muitas vezes,
Joana avistou, de longe, as lágrimas da mãe que, ao ver alguma alteração na
paisagem, logo se obrigava a mudar os tons de cor de uma pintura. E,
evidentemente, também, por diversas vezes, a menina estranhou as lágrimas da
mãe; era curioso como algo tão simples e natural a machucava de tal maneira que não
suportava: debulhava-se em lágrimas. Não eram as lágrimas da mãe que faziam
Joana sorrir. A pequena aprendeu, pouco a pouco, a admirar aquilo que lhe era
estranho, mas que causava, ao mesmo tempo, comoção e admiração enormes.
O contorno era
tamanho que Marina não pensou mais do que deveria, sabia que a hora havia
chegado. De malas prontas, trajada com um vestido branco de tafetá, o qual fora
feito especialmente para a ocasião, a jovem se dirigiu ao hospital. Joana
nascera no último dia de primavera; uma criança delicada, que pouco chorou ao
entrar em contato com o primeiro feixe de luz, vindo dos aparelhos da sala de
cirurgia. Não tardou para que mãe e filha tivessem contato, face a
face, pela primeira vez.
Marina e o médico conversaram por algumas horas. Algo que, aparentemente, poderia ser
encarado como normal, mas não o era. Depois de muito dialogarem a nova mãe
não pode recolher-se à felicidade, desatando a chorar. Fora naquele momento
que, não distante dali, algumas pequenas folhas amareladas caíram à vista de
Marina, no mesmo instante em que o céu, coberto por nuvens escuras, anunciava
uma tarde chuvosa.
Fazia muito frio,
e Joana não compreendia o porquê de não conseguir parar de tremer. Há algumas
horas achara que tudo não passava de uma reação ao frio, mas, ao perceber que
não, gritou pela mãe. Marina estendeu um longo cobertor em volta do corpo da
filha, formando uma espécie de casulo, como forma de proteção. Ambas se abraçaram, e
Marina não teve coragem de movimentar os lábios para murmurar algo à filha. Nem
mesmo Joana quis perguntar-lhe alguma coisa, somente apoiava, com força, a cabeça sob o
ombro da mãe, demonstrando, além da fragilidade, o medo. Era como se sentisse
que algo estava prestes a acontecer, algo que não sabia explicar, meramente
sentia.
Marina recolheu a
filha em seus braços e carregou-a até a copa da árvore, no quintal da casa.
Agarrava as mãos à coberta que envolvia a filha, cravando a força que exteriorizava o medo de perder Joana. As
folhas caídas em volta das duas começaram a esvoaçar por um vento que as levava ao meio do asfalto, cobrindo o cinza de uma coloração amarelada. O alaranjado do céu dava lugar ao manto escuro que se sobrepunha, abrigando a
noite.
Com o vento, os
galhos se retorceram e estalos podiam ser ouvidos. De repente, a imagem dada
era a de uma prisão natural, prestes a despencar no entorno arbóreo.
E os olhos
cerraram. Foi-se um sopro de vida.
Alexandre Ferreira Martins
Assinar:
Comentários (Atom)
About Us
Total Pageviews
“Via-se perfeitamente que estava viva pelo piscar constante dos olhos grandes, pelo peito magro que se levantava e abaixava em respiração talvez difícil. Mas quem sabe se ela não estaria precisando de morrer? Pois há momentos em que a pessoa está precisando de uma pequena mortezinha e sem nem ao menos saber. Quanto a mim,substituo o ato da morte por um seu símbolo. Símbolo este que pode se resumir num profundo beijo mas não na parede áspera e sim boca-a-boca na agonia do prazer que é a morte.”
