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sábado, 19 de maio de 2012

Sopro de vida


Os galhos das árvores se retorciam em meio a emaranhados de folhas secas, prestes a cairem sobre a grama úmida. Pequenos pedaços de madeira quedavam-se ao primeiro pingar d'água da chuva, assim como, também, caíam as primeiras folhas que comunicavam ao mundo o fim da primavera. E, mesmo que Marina soubesse, era impossível reverter o que a natureza inevitavelmente fazia. Em vista disso, não teria, em seus quadros a óleo, a coloração verde sob os sutis reflexos do sol. Formava-se, na paisagem, uma atmosfera digna dos dias que transcorriam: triste.
Joana, filha de Marina, era ainda pequena quando, pela primeira vez, sorriu ao ver uma folha seca cair sobre o rosto da mãe. A menina se acostumou, ligeiramente, com as mudanças de estação. Sabia, desde criança, que as pequenas mudanças causadas pela natureza eram empecilhos às pinturas de sua mãe. Por muitas vezes, Joana avistou, de longe, as lágrimas da mãe que, ao ver alguma alteração na paisagem, logo se obrigava a mudar os tons de cor de uma pintura. E, evidentemente, também, por diversas vezes, a menina estranhou as lágrimas da mãe; era curioso como algo tão simples e natural a machucava de tal maneira que não suportava: debulhava-se em lágrimas. Não eram as lágrimas da mãe que faziam Joana sorrir. A pequena aprendeu, pouco a pouco, a admirar aquilo que lhe era estranho, mas que causava, ao mesmo tempo, comoção e admiração enormes.
O contorno era tamanho que Marina não pensou mais do que deveria, sabia que a hora havia chegado. De malas prontas, trajada com um vestido branco de tafetá, o qual fora feito especialmente para a ocasião, a jovem se dirigiu ao hospital. Joana nascera no último dia de primavera; uma criança delicada, que pouco chorou ao entrar em contato com o primeiro feixe de luz, vindo dos aparelhos da sala de cirurgia. Não tardou para que mãe e filha tivessem contato, face a face, pela primeira vez.
           Marina e o médico conversaram por algumas horas. Algo que, aparentemente, poderia ser encarado como normal, mas não o era. Depois de muito dialogarem a nova mãe não pode recolher-se à felicidade, desatando a chorar. Fora naquele momento que, não distante dali, algumas pequenas folhas amareladas caíram à vista de Marina, no mesmo instante em que o céu, coberto por nuvens escuras, anunciava uma tarde chuvosa.
Fazia muito frio, e Joana não compreendia o porquê de não conseguir parar de tremer. Há algumas horas achara que tudo não passava de uma reação ao frio, mas, ao perceber que não, gritou pela mãe. Marina estendeu um longo cobertor em volta do corpo da filha, formando uma espécie de casulo, como forma de proteção. Ambas se abraçaram, e Marina não teve coragem de movimentar os lábios para murmurar algo à filha. Nem mesmo Joana quis perguntar-lhe alguma coisa, somente apoiava, com força, a cabeça sob o ombro da mãe, demonstrando, além da fragilidade, o medo. Era como se sentisse que algo estava prestes a acontecer, algo que não sabia explicar, meramente sentia.
Marina recolheu a filha em seus braços e carregou-a até a copa da árvore, no quintal da casa. Agarrava as mãos à coberta que envolvia a filha, cravando a força que exteriorizava o medo de perder Joana. As folhas caídas em volta das duas começaram a esvoaçar por um vento que as levava ao meio do asfalto, cobrindo o cinza de uma coloração amarelada. O alaranjado do céu dava lugar ao manto escuro que se sobrepunha, abrigando a noite.
Com o vento, os galhos se retorceram e estalos podiam ser ouvidos. De repente, a imagem dada era a de uma prisão natural, prestes a despencar no entorno arbóreo.
E os olhos cerraram. Foi-se um sopro de vida.


Alexandre Ferreira Martins

Um comentário:

  1. Seus textos sempre me impressionam… Sempre consigo viajar com suas palavras e sentir suas emoções.

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“Via-se perfeitamente que estava viva pelo piscar constante dos olhos grandes, pelo peito magro que se levantava e abaixava em respiração talvez difícil. Mas quem sabe se ela não estaria precisando de morrer? Pois há momentos em que a pessoa está precisando de uma pequena mortezinha e sem nem ao menos saber. Quanto a mim,substituo o ato da morte por um seu símbolo. Símbolo este que pode se resumir num profundo beijo mas não na parede áspera e sim boca-a-boca na agonia do prazer que é a morte.”

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