Os galhos das
árvores se retorciam em meio a emaranhados de folhas secas, prestes a cairem sobre a grama úmida. Pequenos pedaços de madeira quedavam-se ao primeiro pingar
d'água da chuva, assim como, também, caíam as primeiras folhas que comunicavam
ao mundo o fim da primavera. E, mesmo que Marina soubesse, era impossível
reverter o que a natureza inevitavelmente fazia. Em vista disso, não teria, em seus
quadros a óleo, a coloração verde sob os sutis reflexos do sol. Formava-se, na paisagem, uma atmosfera digna dos dias que transcorriam: triste.
Joana, filha de
Marina, era ainda pequena quando, pela primeira vez, sorriu ao ver uma folha
seca cair sobre o rosto da mãe. A menina se acostumou, ligeiramente, com as
mudanças de estação. Sabia, desde criança, que as pequenas mudanças causadas
pela natureza eram empecilhos às pinturas de sua mãe. Por muitas vezes,
Joana avistou, de longe, as lágrimas da mãe que, ao ver alguma alteração na
paisagem, logo se obrigava a mudar os tons de cor de uma pintura. E,
evidentemente, também, por diversas vezes, a menina estranhou as lágrimas da
mãe; era curioso como algo tão simples e natural a machucava de tal maneira que não
suportava: debulhava-se em lágrimas. Não eram as lágrimas da mãe que faziam
Joana sorrir. A pequena aprendeu, pouco a pouco, a admirar aquilo que lhe era
estranho, mas que causava, ao mesmo tempo, comoção e admiração enormes.
O contorno era
tamanho que Marina não pensou mais do que deveria, sabia que a hora havia
chegado. De malas prontas, trajada com um vestido branco de tafetá, o qual fora
feito especialmente para a ocasião, a jovem se dirigiu ao hospital. Joana
nascera no último dia de primavera; uma criança delicada, que pouco chorou ao
entrar em contato com o primeiro feixe de luz, vindo dos aparelhos da sala de
cirurgia. Não tardou para que mãe e filha tivessem contato, face a
face, pela primeira vez.
Marina e o médico conversaram por algumas horas. Algo que, aparentemente, poderia ser
encarado como normal, mas não o era. Depois de muito dialogarem a nova mãe
não pode recolher-se à felicidade, desatando a chorar. Fora naquele momento
que, não distante dali, algumas pequenas folhas amareladas caíram à vista de
Marina, no mesmo instante em que o céu, coberto por nuvens escuras, anunciava
uma tarde chuvosa.
Fazia muito frio,
e Joana não compreendia o porquê de não conseguir parar de tremer. Há algumas
horas achara que tudo não passava de uma reação ao frio, mas, ao perceber que
não, gritou pela mãe. Marina estendeu um longo cobertor em volta do corpo da
filha, formando uma espécie de casulo, como forma de proteção. Ambas se abraçaram, e
Marina não teve coragem de movimentar os lábios para murmurar algo à filha. Nem
mesmo Joana quis perguntar-lhe alguma coisa, somente apoiava, com força, a cabeça sob o
ombro da mãe, demonstrando, além da fragilidade, o medo. Era como se sentisse
que algo estava prestes a acontecer, algo que não sabia explicar, meramente
sentia.
Marina recolheu a
filha em seus braços e carregou-a até a copa da árvore, no quintal da casa.
Agarrava as mãos à coberta que envolvia a filha, cravando a força que exteriorizava o medo de perder Joana. As
folhas caídas em volta das duas começaram a esvoaçar por um vento que as levava ao meio do asfalto, cobrindo o cinza de uma coloração amarelada. O alaranjado do céu dava lugar ao manto escuro que se sobrepunha, abrigando a
noite.
Com o vento, os
galhos se retorceram e estalos podiam ser ouvidos. De repente, a imagem dada
era a de uma prisão natural, prestes a despencar no entorno arbóreo.
E os olhos
cerraram. Foi-se um sopro de vida.
Alexandre Ferreira Martins

Seus textos sempre me impressionam… Sempre consigo viajar com suas palavras e sentir suas emoções.
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