As molduras douradas arqueavam imagens desconhecidas. Figuras disformes, desconexas e, aparentemente, sem sentido. À espera de nada,
entediei-me um pouco, procurando distração em um pedaço de cordão preso a uma
almofada; passei a desfiá-lo, puxava com a ponta dos dedos um primeiro fio que encadeava a desarmonia dos outros. Ao desmanchar a quarta ponta da
almofada, Olga apareceu-me à janela, por minhas costas, assustando-me.
A poltrona ficava à frente de uma imensa janela, cuja cor verde já estava
desgastada pelo tempo. Recostado, ao perceber os dedos me apertando, senti um espantoso
calafrio, um entrechoque de sensações: meu pescoço, ainda quente por conta do
cachecol que o envolvia, chocou-se com delicados dedos de pontas frias, mãos
descobertas em pleno inverno. Não foi difícil perceber que era Olga,
evidentemente. Por vezes senti aquelas mãos acariciarem meu rosto, mesmo que
não conseguisse ao menos tocar suas mãos por medo, um medo provido de minha
essência, de uma essência que requeria confiança e, principalmente, amor
verdadeiro.
Casamo-nos no inverno, em uma igreja simples do interior de nossa cidade
natal. Decoraram-na com rosas carnudas, vermelhas, envoltas por folhas de um
verde quase artificial. Um tapete vermelho, aveludado, cobria o chão
eclesiástico da porta ao altar, onde me encontrava quando vi Olga adentrar,
recoberta por um vestido branco. Estava belíssima. Não creio tê-la visto mais
bela do que quando casamos. De maneira alguma, naqueles momentos eternizados em
minha memória, pensei que poderia algum dia recuar de seu amor.
Ignorei o ocorrido e voltei-me às almofadas. Olga olhou o que eu estava
fazendo, senti sua presença por alguns minutos, estática e pensativa, parecia
querer dizer algo, mas não conseguia, ou não tinha coragem. Quando a vi entrar
na sala, parei imediatamente de desfiar as cordas e voltei meu rosto ao dela.
Os cachos de um tom caramelo recobriam seus ombros, perpassando a pele clara e
de aspecto delicado. Seus olhos, aqueles olhos d’água cristalina, olhos que me
invitavam a mergulhar por suas profundezas, também repeliam-me, inspiravam-me
o medo de afogar. Asfixia.
O sangue parecia coagular sobre minhas mãos e, no menor toque, espalhava-se
por entre os dedos, tecendo, em minha pele, um contraste de duas cores. Vi, novamente, pinturas desconexas, imagens que pareciam, enfim, fazer sentido. Do
rosto dela brotavam rosas vermelhas como as de nosso casamento, tão
encarnadas quanto aquelas que embelezaram a cerimônia. Parei de apertar o
pescoço ao ver que o desabrochar se concluíra. Tão linda, bela, alva, parecia
sorrir imóvel, transparecendo viver mais do que se ainda tivesse.
Despertei. Como habitual, ergui as cortinas às duas extremidades,
prendendo-as a um pequeno gancho anexado à parede. Mas, ao virar para cama,
deparei-me com uma visão bárbara. Adormeci mergulhado em águas vermelhas, águas
que não afogaram a mim, mas sim a Olga, que já não enchia o peito de ar. Inflou
o tórax do líquido escarlate, secando o mar d’água cristalina, imagem ocultada,
para sempre, por duas cortinas abaixadas, por duas pálpebras sem vida.
Do sonho fez-se o real incompreensível. Colocaram-me atrás das grades e
julgaram meu destino por algo que não fiz, por imagens que pareciam restritas a
um sonho aterrorizante, mas que se exteriorizaram, de alguma forma, para o real. E, quando não mais suportei estar trancafiado por simplesmente não ter aprendido a
amar, mergulhei no mesmo mar que levara Olga. Asfixia.
Alexandre Ferreira Martins

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