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quarta-feira, 30 de maio de 2012

Adeus

Sob as águas da vida
um Sol que partia,
que se punha ao olhar
de quem o amava.
E se ocultava,
da forma mais pura,
dando vez à lua
sem o adeus da despedida.

terça-feira, 29 de maio de 2012

A descoberta do mundo - Clarice Lispector


O que eu quero contar é tão delicado quanto a própria vida. E eu queria poder usar delicadeza que também tenho em mim, ao lado da grossura de camponesa que é o que me salva.
Quando criança, e depois adolescente, fui precoce em muitas coisas. Em sentir um ambiente, por exemplo, em aprender a atmosfera íntima de uma pessoa. Por outro lado, longe de precoce , estava em incrível atraso em relação a outras coisas importantes. Continuo aliás atrasada em muitos terrenos. Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais.
Até mais que treze anos, por exemplo, eu estava em atraso quanto ao que os americanos chamam de fatos da vida. Essa expressão se refere à relação profunda de amor entre um homem e uma mulher, da qual nascem os filhos. Ou será que eu adivinhava mas turvava minha possibilidade de lucidez para poder, sem me escandalizar comigo mesmo, continuar em inocência a me enfeitar para os meninos? Enfeitar-me aos onze anos de idade consistia em lavar o rosto tantas vezes até que a pele esticada brilhasse. Eu me sentia pronta, então. Seria minha ignorância um modo sonso e inconsciente de me manter ingênua para poder continuar, sem culpa, a pensar nos meninos? Acredito que sim. Porque eu sempre soube coisas que nem eu mesma sei que sei.
As minhas colegas de ginásio sabiam de tudo e inclusive contavam anedotas a respeito. Eu não entendia mas fingia compreender para que elas não me desprezassem e à minha ignorância.
Enquanto isso, sem saber da realidade, continuava por puro instinto a flertar com os meninos que me agradavam, a pensar neles. Meu instinto precedera a minha inteligência.
Até que um dia, já passados os treze anos, como se só então eu me sentisse madura para receber alguma realidade que me chocasse, contei a uma amiga íntima o meu segredo: que eu era ignorante e fingira de sabida. Ela mal acreditou, tão bem eu havia fingido. Mas terminou sentindo minha sinceridade e ela própria encarregou-se ali mesmo na esquina de me esclarecer o mistério da vida. Só que também ela era um amenina e não soube falar de um modo que não ferisse a minha sensibilidade de então. Fiquei paralisada olhando para ela, misturando perplexidade, terror, indignação, inocência mortalmente ferida. Mentalmente eu gaguejava: mas por quê? Mas por quê? O choque foi tão grande – e por uns meses traumatizante – que ali mesmo na esquina jurei alto que nunca iria me casar.
Embora meses depois esquecesse o juramento e continuasse com meus pequenos namoros.
Depois, com o decorrer de mais tempo, em vez de me sentir escandalizada pelo modo como uma mulher e um homem se unem, passei a achar esse modo de uma grande perfeição. E também de grande delicadeza. Já então eu me transformara numa mocinha alta, pensativa, rebelde, tudo misturado a bastante selvageria e muita timidez.
Antes de me reconciliar com o processo da vida, no entanto, sofri muito, o que poderia ter sido evitado se um adulto responsável se tivesse encarregado de me contar como era o amo. Esse adulto saberia como lidar com uma alma infantil sem martirizá-la com a surpresa, sem obrigá-la a ter toda sozinha que se refazer para de novo aceitar a vida e os seus mistérios.
Porque o mais surpreendente é que, mesmo depois de saber de tudo, o mistério continua intacto. Embora eu saiba que de uma planta brotar um flor, continuo surpreendida com os caminhos secretos da natureza. E se continuo até hoje com pudor não é porque ache vergonhoso, é pudor apenas feminino.
Pois juro que a vida é bonita.

Versos de uma manhã


Quando eu sorria, querendo que fosse,
sorvia em sonhos dos teus lábios o doce.
Amanhecia em lágrimas choradas para o nada
e clamava, em pensamentos,
poder querer estar contigo, minha amada.

Das minhas desatenções tiraste a raiva
que crescera em flor e,
como mágica.,
desabrochara em amor,

Sei que por vezes choraste
pelos olhos daquele que não te parecia sorrir.
Dele, ganhaste um não.
Deste que vos fala, ganhaste o coração.

quinta-feira, 24 de maio de 2012


Talvez

Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém 
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos...
E por amor
Serei... Serás...Seremos...

Pablo Neruda

domingo, 20 de maio de 2012

Asfixia


As molduras douradas arqueavam imagens desconhecidas. Figuras disformes, desconexas e, aparentemente, sem sentido. À espera de nada, entediei-me um pouco, procurando distração em um pedaço de cordão preso a uma almofada; passei a desfiá-lo, puxava com a ponta dos dedos um primeiro fio que encadeava a desarmonia dos outros. Ao desmanchar a quarta ponta da almofada, Olga apareceu-me à janela, por minhas costas, assustando-me.
A poltrona ficava à frente de uma imensa janela, cuja cor verde já estava desgastada pelo tempo. Recostado, ao perceber os dedos me apertando, senti um espantoso calafrio, um entrechoque de sensações: meu pescoço, ainda quente por conta do cachecol que o envolvia, chocou-se com delicados dedos de pontas frias, mãos descobertas em pleno inverno. Não foi difícil perceber que era Olga, evidentemente. Por vezes senti aquelas mãos acariciarem meu rosto, mesmo que não conseguisse ao menos tocar suas mãos por medo, um medo provido de minha essência, de uma essência que requeria confiança e, principalmente, amor verdadeiro.
Casamo-nos no inverno, em uma igreja simples do interior de nossa cidade natal. Decoraram-na com rosas carnudas, vermelhas, envoltas por folhas de um verde quase artificial. Um tapete vermelho, aveludado, cobria o chão eclesiástico da porta ao altar, onde me encontrava quando vi Olga adentrar, recoberta por um vestido branco. Estava belíssima. Não creio tê-la visto mais bela do que quando casamos. De maneira alguma, naqueles momentos eternizados em minha memória, pensei que poderia algum dia recuar de seu amor.
Ignorei o ocorrido e voltei-me às almofadas. Olga olhou o que eu estava fazendo, senti sua presença por alguns minutos, estática e pensativa, parecia querer dizer algo, mas não conseguia, ou não tinha coragem. Quando a vi entrar na sala, parei imediatamente de desfiar as cordas e voltei meu rosto ao dela. Os cachos de um tom caramelo recobriam seus ombros, perpassando a pele clara e de aspecto delicado. Seus olhos, aqueles olhos d’água cristalina, olhos que me invitavam a mergulhar por suas profundezas, também repeliam-me, inspiravam-me o medo de afogar. Asfixia.
O sangue parecia coagular sobre minhas mãos e, no menor toque, espalhava-se por entre os dedos, tecendo, em minha pele, um contraste de duas cores. Vi, novamente, pinturas desconexas, imagens que pareciam, enfim, fazer sentido. Do rosto dela brotavam rosas vermelhas como as de nosso casamento, tão encarnadas quanto aquelas que embelezaram a cerimônia. Parei de apertar o pescoço ao ver que o desabrochar se concluíra. Tão linda, bela, alva, parecia sorrir imóvel, transparecendo viver mais do que se ainda tivesse.
Despertei. Como habitual, ergui as cortinas às duas extremidades, prendendo-as a um pequeno gancho anexado à parede. Mas, ao virar para cama, deparei-me com uma visão bárbara. Adormeci mergulhado em águas vermelhas, águas que não afogaram a mim, mas sim a Olga, que já não enchia o peito de ar. Inflou o tórax do líquido escarlate, secando o mar d’água cristalina, imagem ocultada, para sempre, por duas cortinas abaixadas, por duas pálpebras sem vida.
Do sonho fez-se o real incompreensível. Colocaram-me atrás das grades e julgaram meu destino por algo que não fiz, por imagens que pareciam restritas a um sonho aterrorizante, mas que se exteriorizaram, de alguma forma, para o real. E, quando não mais suportei estar trancafiado por simplesmente não ter aprendido a amar, mergulhei no mesmo mar que levara Olga. Asfixia.


Alexandre Ferreira Martins

sábado, 19 de maio de 2012

Sopro de vida


Os galhos das árvores se retorciam em meio a emaranhados de folhas secas, prestes a cairem sobre a grama úmida. Pequenos pedaços de madeira quedavam-se ao primeiro pingar d'água da chuva, assim como, também, caíam as primeiras folhas que comunicavam ao mundo o fim da primavera. E, mesmo que Marina soubesse, era impossível reverter o que a natureza inevitavelmente fazia. Em vista disso, não teria, em seus quadros a óleo, a coloração verde sob os sutis reflexos do sol. Formava-se, na paisagem, uma atmosfera digna dos dias que transcorriam: triste.
Joana, filha de Marina, era ainda pequena quando, pela primeira vez, sorriu ao ver uma folha seca cair sobre o rosto da mãe. A menina se acostumou, ligeiramente, com as mudanças de estação. Sabia, desde criança, que as pequenas mudanças causadas pela natureza eram empecilhos às pinturas de sua mãe. Por muitas vezes, Joana avistou, de longe, as lágrimas da mãe que, ao ver alguma alteração na paisagem, logo se obrigava a mudar os tons de cor de uma pintura. E, evidentemente, também, por diversas vezes, a menina estranhou as lágrimas da mãe; era curioso como algo tão simples e natural a machucava de tal maneira que não suportava: debulhava-se em lágrimas. Não eram as lágrimas da mãe que faziam Joana sorrir. A pequena aprendeu, pouco a pouco, a admirar aquilo que lhe era estranho, mas que causava, ao mesmo tempo, comoção e admiração enormes.
O contorno era tamanho que Marina não pensou mais do que deveria, sabia que a hora havia chegado. De malas prontas, trajada com um vestido branco de tafetá, o qual fora feito especialmente para a ocasião, a jovem se dirigiu ao hospital. Joana nascera no último dia de primavera; uma criança delicada, que pouco chorou ao entrar em contato com o primeiro feixe de luz, vindo dos aparelhos da sala de cirurgia. Não tardou para que mãe e filha tivessem contato, face a face, pela primeira vez.
           Marina e o médico conversaram por algumas horas. Algo que, aparentemente, poderia ser encarado como normal, mas não o era. Depois de muito dialogarem a nova mãe não pode recolher-se à felicidade, desatando a chorar. Fora naquele momento que, não distante dali, algumas pequenas folhas amareladas caíram à vista de Marina, no mesmo instante em que o céu, coberto por nuvens escuras, anunciava uma tarde chuvosa.
Fazia muito frio, e Joana não compreendia o porquê de não conseguir parar de tremer. Há algumas horas achara que tudo não passava de uma reação ao frio, mas, ao perceber que não, gritou pela mãe. Marina estendeu um longo cobertor em volta do corpo da filha, formando uma espécie de casulo, como forma de proteção. Ambas se abraçaram, e Marina não teve coragem de movimentar os lábios para murmurar algo à filha. Nem mesmo Joana quis perguntar-lhe alguma coisa, somente apoiava, com força, a cabeça sob o ombro da mãe, demonstrando, além da fragilidade, o medo. Era como se sentisse que algo estava prestes a acontecer, algo que não sabia explicar, meramente sentia.
Marina recolheu a filha em seus braços e carregou-a até a copa da árvore, no quintal da casa. Agarrava as mãos à coberta que envolvia a filha, cravando a força que exteriorizava o medo de perder Joana. As folhas caídas em volta das duas começaram a esvoaçar por um vento que as levava ao meio do asfalto, cobrindo o cinza de uma coloração amarelada. O alaranjado do céu dava lugar ao manto escuro que se sobrepunha, abrigando a noite.
Com o vento, os galhos se retorceram e estalos podiam ser ouvidos. De repente, a imagem dada era a de uma prisão natural, prestes a despencar no entorno arbóreo.
E os olhos cerraram. Foi-se um sopro de vida.


Alexandre Ferreira Martins

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“Via-se perfeitamente que estava viva pelo piscar constante dos olhos grandes, pelo peito magro que se levantava e abaixava em respiração talvez difícil. Mas quem sabe se ela não estaria precisando de morrer? Pois há momentos em que a pessoa está precisando de uma pequena mortezinha e sem nem ao menos saber. Quanto a mim,substituo o ato da morte por um seu símbolo. Símbolo este que pode se resumir num profundo beijo mas não na parede áspera e sim boca-a-boca na agonia do prazer que é a morte.”

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