Pages

domingo, 27 de novembro de 2011

NO LIMIAR DO AMANHECER

Tento abrir meus olhos no relento da noite, na redoma da negritude que minha visão prospecta. Vem a Lua desmascarando com o seu brilho as estrelas, tomando para si o papel central do espetáculo noturno. Ouve-se um assovio de longe. Um pássaro chega, pousa sobre as bromélias e, depois, detém o descanso para interromper os passos nos lótus, das águas enrugadas de um rio sem leito.
Qual será o segredo da Lua? Branca, nua, que me faz aspirar o perfume da meia-noite. Perfume de terra molhada. Perfume também de acomodadas flores singelas, ao relento de uma noite oculta e sentinela do meu viver.
 O mistério do anoitecer se faz do claro ao escuro. Cheiro do perfume da noite. Da noite em que deposito minhas longas asas nas pétalas daquela flor enraizada no líquido cristalino, que projeta a imagem do espetáculo soturno.
E quando a mais fina linha de luz solar faz a primeira costura no céu, eu adormeço. Quando percebo, linhas e mais linhas prendem os pedaços da manhã ao negro tecido noturno. Não sinto mais o natural cheiro da noite e perco a sensação de estar assistindo, mais uma vez, ao espetáculo da gigantesca esfera branca no céu. Tudo se modifica no final da noite e no início do dia. Fora o nascer de um amanhecer...fora o morrer do meu anoitecer.

sábado, 26 de novembro de 2011

O ACORDO DA NATUREZA

Alexandre Ferreira Martins

As roupas suspensas no varal batiam umas contra as outras, e Joana permanecia repousada no pequeno banco de madeira, desenhando algo para dar de aniversário ao pai. Os raios de sol incidiam contra o estojo de metal e desenhavam no rosto de rapariga as curvas da luz. Assim ficara a face de Joana, entre luzes e sombras, invenções da natureza que entrara em conflito hostil sobre a tênue e infante pele de menina.
As roupas suspensas no varal batiam umas contra as outras e Joana permanecia repousada no banco de madeira, linearizando aquarelas de um quadro para dar de aniversário ao pai. Os raios de sol incidiam sobre a moldura metalizada do quadro e desenhavam no rosto da mulher as curvas da luz. Assim ficara a face de Joana, entre luzes e sombras, invenções da natureza que entrara em conflito hostil sobre a tênue e feminil pele de mulher.
As roupas suspensas no varal batiam umas contra as outras, e Joana permanecia repousada no banco de madeira, na varanda de casa, concluindo um elegantíssimo terno que fizera para dar de aniversário ao pai. Os raios de sol incidiam contra as agulhas depositadas na mesa e desenhavam no rosto de mãe e filha, as curvas da luz. Assim ficara a face de Joana, entre luzes e sombras, invenções da natureza que entrara em conflito hostil sobre a tênue e senil pele de mulher.
As roupas suspensas no varal batiam umas contra as outras, e Joana permanecia repousada na cama, dentro do quarto, sob os cuidados das duas filhas, concluindo uma prece espiritual para a alma do pai. Os raios de sol que incidiam contra a maçaneta da porta do quarto desenhavam no rosto de mãe, de filha e de avó, as curvas da luz. Assim ficara a face de Joana, entre luzes e sombras, invenções da natureza que entrara em conflito hostil sobre a tênue e anciã pele de mulher.
As roupas suspensas nos cabides, dentro do guarda-roupa, ficaram imóveis e Joana permanecia repousada sobre aquela enorme caixa, debaixo da terra, sucumbindo ao destino humano e comum. Os raios de sol incidiam contra o estojo, contra a moldura metalizada, contra as agulhas depositadas e contra a maçaneta agora trancada. Não mais desenhavam curvas da luz em objeto ou ser algum. Assim fora o fim de Joana, entre o escuro e somente o escuro, invenção da natureza que entrara em acordo, que solucionara o conflito, sobre a tênue e humana pele de mulher.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Brisas...

A ideia de escrever este conto veio depois de eu reencontrar uma amiga muito especial. Tento passar exatamente o que desejo para a vida dela... que viva entre as brisas da felicidade. Isso porque ela mesma me ensinou que é possível estampar um sorriso mesmo quando as lágrimas seriam "normais". 
A história não espelha a realidade, mas reflete um sentimento comum, um sentimento muito humano: a vontade de viver.



ENTRE BRISAS E VENTANIAS
Alexandre Ferreira Martins

Bagunça para todo lado. As caixas lotavam o quarto de Natália de modo que não se enxergava mais onde ficava a porta do cômodo. A menina meiga e delicada, com linhas suaves que lhe desenhavam belas formas faciais, corria de um lado para o outro, procurando pelo livro predileto. Era verão, mas, evidentemente, a menina que amava ler precisava levar consigo um amigo para apresentar aos seus castelinhos de areia.
 Em meio ao papelão, deitou-se e respirou fundo. Um sorriso estampado, que ia de orelha a orelha, moldava em seu rosto a mais admirável personificação da alegria. “Finalmente, férias!”, ela pensou. E depois de um ano escolar muito agitado, repleto de provas e trabalhos que pareciam não ter fim, ela então poderia descansar, deitada em uma espreguiçadeira tomando seu suco de uva com algumas pedrinhas de gelo. Ah, mas é claro, não se pode esquecer do canudinho. Nas férias, sentindo a brisa do mar, Natália era uma autêntica preguiçosa.
Nem mesmo queria saber do piano. E olha que a menina do rosto bem desenhado era uma excelente pianista - desde pequenina, Natália acompanhava seus pais nos concertos da orquestra de sua cidade, e era apaixonada pelo som delicado que vinha do imenso instrumento negro, o piano.  As notas musicais acariciavam as orelhinhas de Natália de modo que ela soltava risos conforme a música se apresentava; lembravam as carícias de vovó, a quem Natália amava tanto, mas que por ironia do destino, cedo partira. Apaixonou-se pela música e logo aprendeu as primeiras notas. Quando seus pais perceberam, Natália tocava brilhantemente as partituras natalinas.
Mas o Natal já havia passado, e a mãe de Natália batia sem parar a buzina do carro, do lado de fora da casa. A menina saltou do chão, colocou todos os objetos na mochila e saiu correndo em direção à escada. Quando já estava terminando de descer os enormes degraus, deu-se por falta do livro. Natália voltou e, por sorte, avistou o objeto perdido em cima de seu sapateiro. Sucesso. Havia encontrado o amigo.
Natália foi correndo em direção ao automóvel enquanto observava o céu nublado, que anunciava uma tempestade. Ofegante, com os dedinhos sobre a maçaneta, abriu a porta do carro e entrou. Aconchegou-se no estofado e acariciou o irmão, ainda bebê, que a contemplou retribuindo-lhe um gracioso sorriso. “Vamos lá, garotada?”, disse a mãe entusiasmada, movimentando o retrovisor de forma que pudesse observar as duas crianças no decorrer da viagem. Visto que alguns pingos de chuva começavam a cair, os vidros das janelas foram fechados. Deu-se inicio à diversão.
O piano começou a tocar como um som de fundo, na escuridão. Viu-se um ponto de luz. Natália não conseguia compreender o que havia acontecido, apenas continuava a escutar a música sem fim. De repente da escuridão fez-se a luz e os olhos da menina reagiram à claridade. Novamente veio a escuridão. Sentiu que a amarravam e que seu corpo estava sendo transportado de um lugar para o outro, com poucas interrupções. Pouco a pouco, ela começou a escutar vozes, e de uma hora para outra passou a perceber claramente o que cada uma das vozes dizia. Foi um susto porque não apreendia o que havia acontecido, apenas acomodou-se e esperou que aquele sonho estranho acabasse.
Um som que se repetia e vozes que Natália não reconhecia. Dedos acariciando seu rosto, pessoas desejando-lhe forças, fazendo preces, percepções que ela não entendia. Passaram-se dias, e ela não conseguia escutar a voz de sua mãe e os pedaços de palavras de seu irmão; chorava, mesmo que suas lágrimas não fossem visíveis aos donos de todas aquelas vozes. A menina conviveu com a saudade, com a vontade de poder se mover, com a vontade de poder abrir os olhos e enxergar todas as pessoas que a tratavam carinhosamente. Mesmo não entendendo, Natália procurou em seu “eu” as respostas das quais precisava. Não encontrou. Sua alma debulhou em lágrimas.
Em pensamentos, a menina conseguia projetar-se em seu quarto, deitada em meio às caixas de papelão, sonhando novamente, voltando instantes antes daquela constante incompreensão. De um lado enxergava o seu piano, lustrado, de um negro vivo e reluzente; do outro lado via a cama macia, com a colcha rosa que ganhara de vovó, feita a mão, escrito “Durma bem meu anjinho” em letras prateadas. E as vozes, vivas como nunca, pareciam circular a sua volta, unindo-se ao som do piano numa bela canção.
 As preces tornaram-se cânticos angelicais e as vozes misturavam-se aos cânticos de maneira que Natália sentia a mesma sensação que sentira ao assistir pela primeira vez a orquestra de sua cidade: sentiu-se viva. A música entrava em sua alma e saciava a vontade da menina de poder se comunicar, de se movimentar, de poder de fato viver no conceito mais usual da palavra. Mas estaria ela viva se pudesse andar, falar e compreender? Natália passou a criar, mesmo tão pequenina, o seu próprio conceito de vida.
Uma voz grossa e familiar soou nos ouvidos da pianista, e logo ela reconheceu que se tratava de seu pai. Imediatamente, Natália sentiu vontade de saltar da cama em que estava deitada e abraçar o pai. O medo era grande, estava perdida em algo que parecia ser um sonho, mas não era - até mesmo porque Natália sabia que sonhos não duravam tanto tempo. “Querida, eu estou aqui e ficarei ao seu lado até tudo isso acabar”, disse, com a voz trêmula, o pai de Natália. E as palavras abrigaram a alma da pequenina, como se a alma do pai a pegasse nos braços e, fortemente, a abraçasse. O calor paterno podia ser sentido, e a felicidade abria, depois de tantas incompreensões, uma janela na alma da pianista.  Outra melodia dava lugar àquela que parecia não ter fim.
Piscou uma vez. Piscou duas, três. A visão um pouco turva misturava as cores dos objetos e não deixava que ela conseguisse distinguir tudo ao seu redor. Alguns minutos após, a careca de papai era visível. Depois, as flores em suas mãos tomavam, pouco a pouco, suas devidas formas e cores. As voltas do laço de fita que envolvia as flores igualmente tomavam forma, assim como a nitidez do tom claro de rosa, a cor preferida da criança. As flores foram depositadas sobre o colo de Natália, que queria poder apalpá-las e aspira-las, mas não conseguia. Alguma força maior prendia os braços e as pernas da menina. Parecia que as mãos dos gigantes - daqueles gigantes, das histórias que escutara na escola - estavam prendendo seus braços entre as cobertas da cama.
“Som” foi a primeira palavra pronunciada por Natália depois de alguns meses em casa. A mãe e o irmão não apareceram no tempo em que a menina esteve deitada, em seu quarto reformado. Não mais havia caixas. Agora as paredes rosas estavam decoradas com adesivos de notas musicais, o armário e a estante foram trocados, os livros organizados da mesma forma que ela deixara, e o belíssimo piano, como sempre estava lá, à espera da pequena pianista, intacto no mesmo canto. Por vezes, Natália virava o rosto para janela do quarto e esperava que pudesse enxergar a mãe embalando seu irmãozinho no balanço do jardim. Não os avistou, porque eles não estavam lá. Nunca mais estiveram, e Natália começou a assimilar que talvez não os visse mais. Chorou, de verdade, depois de muito tempo - esse choro sim era visível, externo. O pai de Natália escutou a voz da filha que gritava desesperada pela mãe e pelo irmão.
Era primavera. A grama ainda estava um pouco molhada quando o pai de Natália a deixou ao lado de uma árvore para comprar algodão doce. Ela observou as gotas de chuva no chão e, quando percebeu, uma pequena folha caíra da árvore em suas mãos. O sopro de um vento repentino levou para longe o chapéu da menina e deixou a sua cabeça, que não mais abrigava seus longos fios de cabelo, à mostra. Natália se envergonhou. Sentia falta de alisar os cabelos com os dedos assim como do passa-tempo de penteá-los em frente ao espelho do quarto. Sentia falta das longas madeixas que agora demorariam a crescer.
Suas mãos ainda não obedeciam aos comandos da mente - um pequeno objeto de silicone as deixava entreabertas para que não atrofiassem. Uma vaga lembrança dos movimentos que executava ao piano começava a surgir, doce recordação que ela não sabia responder se um dia viria a repetir. Mas o sopro não arrastou somente o chapéu de Natália. A folha também se movimentou. Foi nesse momento que a menina, pela primeira vez depois tanto tempo, conseguiu movimentar os dedos no impulso de tentar agarrar a folha. Com dois algodões-doces, um rosa e outro amarelo, envolvidos por um enorme plástico, retornou o pai de Natália. Pregados ao plástico do algodão rosa estavam uma flor de brinquedo e um papel com algo escrito. Com a voz meiga, o pai começou a ler, devagar, a pequena mensagem:
“Sou como você me vê.
Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania.
Depende de quando e como você me vê passar.”
Encantamento. As palavras daquele autor, ou autora, tocaram seu coração como nenhuma outra palavra tocara desde que a incompreensão se fez presente em sua vida. Para a menina, a fonte ou contexto original daquelas palavras não importavam, mas sim o modo como tal mensagem era aplicável à sua realidade. A superação não dependia somente da ajuda do pai ou dos médicos que diariamente a auxiliavam, mas dependia dela mesma. Uma nova melodia passou a tocar em sua mente, desta vez iluminando as idéias, de forma que Natália deixou de lado a tristeza para dar lugar à motivação.
Aquela tarde primaveril fez surgir ventanias na vida de Natália. Voltando para casa, os dois presenciaram uma batida de carro e a menina viu o exato momento em que o vidro da parte traseira de um dos automóveis despedaçou, caindo em mil pedaços sobre o asfalto da rua. Os cacos refletiram a luz do sol, que mais pareciam labaredas. As pálpebras de Natália fecharam e uma lembrança, aparentemente apagada da memória, atingiu-a como um choque em meio a uma tempestade.
“Eu estou aqui”, foi o que a menina escutou de uma voz familiar. De algum modo, ela pode ver a cena que era criada à sua frente. Estava frio e ventava muito. A chuva arrastada pelo vento intenso batia nos vidros do carro como se fosse quebrá-los, tamanha era a força com que se lançavam as gotas. As árvores se movimentavam com tanta agilidade pelo vento que algumas delas estavam com os troncos deslocados, quase sendo inteiramente arrancadas do terreno. E uma das árvores caiu.
Na tentativa de esquivar-se do enorme obstáculo, a mãe de Natália desviou e o automóvel caiu em um enorme barranco. Doze foi o número de voltas que o veículo deu no ar, batendo no solo a cada volta dada. A menina escutou os gritos até a quinta volta, quando as vozes cessaram. Cansaço? Não. Desesperada, Natália projetou-se em frente ao carro, tentando pará-lo. Não conseguiu. Queria poder ajudar, mas algo a impedia; seus dedos ultrapassaram a porta amassada e depois o estofado da parte traseira.  Não enxergou o irmão e a mãe estava irreconhecível. A pianista viu sua cabeça encostada no vidro da janela do automóvel e o sangue escorrendo de sua testa, deixando o rosto quase por inteiro coberto. O líquido rubro formava linhas irregulares na pele clara da pequena, desenhando em seu rosto as raízes de uma tragédia.
De repente, pessoas começaram a retirá-la do carro, bem como a sua mãe e depois ao irmão, que foi parar embaixo do banco do motorista. Estava muito escuro, mas logo chegou uma ambulância iluminando com os faróis todo o espaço. Fechada a porta do socorro, novamente veio a escuridão. A partir desse momento, Natália compreendeu tudo o que acontecera, principalmente depois de escutar de um dos paramédicos “Ela está em coma, já a mãe e o irmão morreram no local”. Inesperado, como um despertar, o carro do acidente entrou em chamas e explodiu.
Ele estava à sua frente esperando que abrisse novamente os olhos. O pai viu as lágrimas descendo pelas bochechas rosadas da menina, e também chorou. Abaixou-se ao nível da cadeira de rodas na qual a filha estava sentada e abraçou-a. Enfim, Natália contou ao pai que se lembrava do acidente e que agora compreendia o porquê de sua situação.
Todas as sensações e sentimentos que se precederam ao primeiro abrir de olhos da menina faziam sentido. Natália passou um longo período em coma e, mesmo aparentando nada ouvir ou sentir, ela estava lá. Conseguia escutar cada palavra e sentir cada toque sobre seu corpo. Mas e as músicas que pararam e outras que começaram a tocar? Era a consciência entre brisas e ventanias. “Sou como você me vê”, ela pensou. Precisava ser como ela mesma queria se ver, independente de suas condições, independente da falta de movimentos ou da limitação prosódica. “Superação”, ela pensou. Era necessário que ela superasse os obstáculos que a vida estava lhe impondo, aprendendo a viver do seu jeito; eram as suas reais condições e ela não podia mais sofrer com aquilo, isso só deteriorava a mente e o coração. É evidente que Natália sabia o quanto todos se esforçavam para ela se recuperar ao máximo, desde o pai à fisioterapeuta, ao fonoaudiólogo... todos contribuíam para que se sentisse bem e pudesse viver entre as brisas da felicidade. Todavia, a mente da pianista era uma inconstância. Vivia entre brisas e ventanias, puramente produtos do imaginário de um pequenino ser, obrigado ainda tão jovem a conviver com uma difícil realidade.
De novo, chegou o verão. Não mais havia a bagunça do verão passado, tudo estava organizado. As caixas foram colocadas no lixo, os antigos cômodos vendidos a uma loja de móveis usados e a porta, com a placa “Meu quartinho” pendurada, perfeitamente visível, não mais estava coberta pelo papelão. O quarto estava impecável. Natália orgulhou-se, mesmo não tendo feito o trabalho braçal, foi ela quem orientou a moça da limpeza para que tudo ficasse do jeitinho que ela gostava. Quando saiu do hospital o quarto estava belo, mas não como ela desejava.
Dessa vez, Natália finalmente levaria o amigo para apresentar aos castelinhos de areia. Não os seus, mas os de seus outros amigos porque ela não mais conseguiria construí-los com as próprias mãos. Isso era o de menos. Ela queria mostrar o quão belas eram as obras primas que ela e seus amigos faziam durante o veraneio. Com certeza todos a ajudariam na empreitada.
A caminho da praia, sentada no banco de trás do carro e acordando de um delicioso cochilo, Natália olhou pelo vidro da janela as paisagens que se criavam durante a viagem. Árvores e mais árvores iam ficando para trás, e ela não mais via o vento movimentando brutamente os galhos, nem mesmo presenciou uma árvore ser arrancada do solo. As nuvens brancas movimentavam-se em meio à imensidão azul do céu, e o sol cheio de vontade de brilhar fazia com que o dia fosse perfeito para a construção dos castelinhos de areia.
Quando chegaram à praia, o pai de Natália colocou um guarda-sol nas areias e abriu a espreguiçadeira. Sobre ela, Natália deitou enquanto os amigos faziam o primeiro castelo, e ela opinava em tudo! Em um pedaço de papel, desenhou algumas notas musicais e pediu aos amigos que as desenhassem na areia, depois que todos os castelos já estivessem finalizados. Todo aquele projeto coordenado por ela foi aplaudido pelos colegas. “Ótimo resultado”, disse um dos pequenos operários. Natália alegrou-se, e ficou imensamente grata aos amigos, pois finalmente pode mostrar ao livro predileto os castelos que a deixavam muito contente.  De súbito, as crianças se juntaram em volta de Natália e abraçaram-na, em um gentil gesto de amizade. A pianista sentiu-se agraciada por poder contar com a ajuda de todos e, mais ainda, por agradecerem a ela por algo que, aparentemente, pouco fez. Lembrou-se da primeira apresentação da escola, na qual todos aplaudiram seu desempenho ao piano e também onde, pela primeira vez, mostrou com intensidade a sua maior paixão aos pais.
Natália fechou os olhos e ouviu a música na presente lembrança, que estava mais viva do que nunca. As notas imaginárias acariciaram suas orelhinhas - era o carinho da avó e também a viva lembrança dos sorrisos da mãe e do irmão. Não queria mais a tristeza em lembrar-se das pessoas que amava tanto, nem mesmo a aflição de não poder voltar a ser como era antes. Natália, enfim, sorriu entre brisas, livre de qualquer consternação que a prendesse em meio a ventanias.

Licença Creative Commons
O trabalho Entre brisas e ventanias de Alexandre Ferreira Martins foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição 3.0 Não Adaptada.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O conto da bailarina...

Escrevi este conto a partir de um perfil humano que transparecesse a perfeição. Aquela perfeição que pode tanto levar ao sucesso quanto à perdição. Foi o último texto lido na Oficina de Criação Literária na faculdade, apesar de ter sido o penúltimo a ser escrito.





AS ANTEFACES DA LEMBRANÇA IMPERFEITA
Alexandre Ferreira Martins

Em um deslocamento suntuoso, erguia o braço esquerdo para agarrar o cordão invisível que a sustentava durante o passo e, com o braço direito, imitava o abraçar de um cavalheiro valsante. Quanto ao arabesco, a estrela de execução era ela; sustentava o corpo com apenas a ponta do pé esquerdo, enquanto erguia a perna direita no ar, imóvel. A coluna ereta e o pescoço elevado davam a elegância que lhe era única, unindo a graciosidade dos contornos que a dança exigia à suavidade com que era capaz de realizar cada passo.

Desde que Sofia entrou pela porta da escola de dança para matricular-se nas aulas de balé, a professora Desirée teve a certeza de que a menina seria um prodígio. Era uma normalista, mas a padronização não regrava a agilidade da jovem — possuía o caminhar esbelto e o olhar analítico que lhe eram naturais. Tanto é verdade que ela, na primeira aula, observou os movimentos das veteranas e conseguiu executá-los com destaque. Talvez os tenha feito mais belamente do que qualquer uma das meninas que as precedia no tempo de aulas. A dedicação de Sofia era extraordinária e admirável.

Ao esvaecer do crepúsculo, após o término do ensaio para a primeira apresentação de Sofia, uma mulher apareceu-lhe no vestiário da escola de dança e começou a discursar sobre como o cotidiano da dançarina era desprezível. A criatura trajada de preto, com o rosto coberto por um véu negro e purpurinado, levou Sofia para passear em uma nuvem de céu chuvoso. O mais incrível era que a roupa da criatura que a levava para um lugar desconhecido, não molhava. Já a bailarina estava encharcada. Os louros cachos do cabelo alisaram-se pelo acúmulo da água, de uma chuva forjada, que penetrava por entre os fios. O clássico tutu branco contraiu-se, tamanha era a intensidade da chuva. Mas Sofia não se preocupou em estar ensopada pela água que parecia penetrar-lhe os poros epiteliais. Queria descobrir para onde a tenebrosa mulher a levava.

Dentro de um quarto escuro que se materializou ao redor das duas, a nuvem desintegrou e Sofia caiu em cima de um tapete plumado. Um pouco tonta, levantou do chão apoiando-se na cabeceira de uma cama gigantesca. Parecia que tomara a pílula de Alice, a menina do País das Maravilhas. Os objetos mostravam-se maiores do que o normal, ou ela estava menor do que parecia. A mulher que acompanhava Sofia não mais vestia preto; estava agora com um vestido branco e, quando virou o rosto para a jovem, Sofia espantou-se. A criatura era uma fase da bailarina refletida em um espelho, aparentemente mais velha. O calendário na parede indicava um tempo incompreensível, uma data indecifrável.

A mulher ofereceu-lhe a mão e conduziu-a até a porta do cômodo – tratava-se de uma enorme tábua de madeira, cuja maçaneta cintilava em um brilho interno, alumiando parte do quarto. Sofia abriu a porta e deparou-se com um salão repleto de pessoas mascaradas. Os tamanhos dos objetos voltaram ao normal e Sofia começou a reconhecer onde estava. Pelas costas, a cópia envelhecida da bailarina aplicou-lhe um feitiço e a jovem, de repente, viu-se trajada de um longo vestido roxo. Cobrindo a metade esquerda de seu rosto, estava uma anteface rubra, bordada a fios de ouro e com o desenho ladeado de uma rosa, contornada por pedras de safira.
Sofia estava em sua casa. Identificou o local assim que viu o lustre de cristal que a mãe ganhara de presente no primeiro aniversário de casamento. O colossal ornamento francês fulgurava mais do que o normal naquela estranha noite.
Misturando-se aos convidados do baile de máscaras, Sofia viu-se perdida em um local tão íntimo aos olhos. Quando tornou o olhar novamente para o lustre, a mão de um homem a segurou pelo braço e a arrastou dizendo que precisava apresentá-la a algumas pessoas. Diante de um casal elegantíssimo, o homem mascarado, que colocava o braço de Sofia entre o dele, apresentou-lhe como sendo sua esposa. Disfarçadamente, a jovem assustou-se com as palavras do homem que jamais vira. Monossilábica, Sofia somente assentia aos comentários do homem, isso porque o semblante das duas pessoas à frente transparecia a aceitação das palavras que lhes eram ditas. Saltou da boca de uma de uma das duas pessoas uma congratulação direcionada a Sofia, o que foi um estranhamento a primeira vista.
No ímpeto do labirinto que se havia criado na imaginação de Sofia, o tempo parou e a jovem pode ver o ambiente estatizado. Indivíduos paralisados em suas respectivas posições, como se todos executassem, com a particularidade de verdadeiros bailarinos, seus próprios passos dançantes. Eram estátuas vivas. Apenas ela conseguia caminhar em meio àqueles corpos imóveis que aparentavam dirigirem-lhe os olhares – era ela a estrela do evento.
Um espelho de armação dourada criou-se atrás de Sofia e mãos desconhecidas, saltadas de dentro do espelho, pararam a jovem que andava a observar a trivialidade de cada estátua humana criada pela pausa do tempo. As mãos duras e gélidas apertavam os braços delicados da dançarina a ponto de provocar uma dor latejante nos locais pressionados. Sofia virou o corpo e reencontrou a mesma figura que antes a conduzira até a porta do quarto escuro. A moça então agarrou o braço que a prendia e tentou repeli-lo, sem êxito. Acabou por ser puxada àquele espelho, penetrando-o.
Um imenso lago refletia a luz do luar no momento em que nele Sofia era jogada. Enquanto caía de uma altura incalculável, pôde escutar vozes enfurecidas que repetiam freneticamente a frase “Mexa-se, Dance!”. Por vezes escutava a voz dos pais, mas em outras também aparentava escutar a voz da professora. Os brados se alternavam na medida em que o seu labirinto mental inaugurava mais e mais caminhos mirabolantes durante a queda. Com medo, Sofia ergueu os braços para tentar submergir com segurança. E mergulhou.
Bateu de joelhos em um piso de mármore, não os machucando tanto, graças ao volumoso vestido que trajava, o mesmo do baile de máscaras. Apoiou as mãos sobre o chão e equilibrou-se para levantar. Olhou a sua volta e percebeu que estava no banheiro da suíte de sua mãe, defronte para o espelho que cobria quase por inteira uma das paredes. Abaixo, o lavabo permanecia organizado. Pelo espelho, avistou alguns porta-retratos que ficavam sobre a cômoda da suíte; eram fotos dela com o suposto marido, aparentando cenas de muita felicidade — em uma das imagens, inclusive, o homem segurava o queixo de Sofia beijando-lhe a testa, enquanto ela sorria singelamente com o canto dos lábios.
Algum tempo depois de admirar a imagem, zumbidos ecoaram pelo ambiente e, não suportando o barulho que estouraria seus tímpanos, a jovem tapou os ouvidos com as mãos e cerrou os olhos. Quando o som parou, ela ergueu as pálpebras e atrás de si, pelo espelho, o mesmo homem das fotografias, com metade do rosto coberto pela máscara, enrolava no pescoço dela um grosso pedaço de corda.
Segurando firme pelas duas pontas da corda, o homem começou a apertar o objeto contra o pescoço de Sofia, puxando-o, enraivecido. Ela começou a gritar, mas logo perdeu a voz, pois lhe faltara o ar. Em poucos segundos, o sangue começou a sair por sua boca e depois pelos olhos, transfigurando a face ainda mascarada e pincelando o roxo do vestido, que logo enegreceu por onde o sangue penetrava. O homem arrancou a máscara da face da bailarina, e uma rosa encarnada desenhou-se no rosto nu, com o líquido que transbordava ininterruptamente. Mas Sofia não morreu, ainda conseguia ver toda vida que jorrava de seu interior. As pedras de safira descolaram do adorno, caíram no chão e o marido impiedoso nelas pisou, despedaçando-as. O homem abraçou a bailarina e ergueu o corpo feminino, quase desfalecido, encenando um dos passos que ela executara nas aulas de balé. Ele era o seu cavalheiro valsante e a corda não era invisível, estava lá, enrolada em suas mãos que não conseguiam se erguer. Foi preciso que o marido distendesse o braço da jovem para que os dois realizassem juntos a última dança, cuja perfeição se ausentava ao passo que Sofia, perturbada, admirava uma rosa depositada sobre parapeito da janela. 
“E um, e dois, e três...” era o que Sofia murmurava quando a mãe acordou-a do sono em pé. A jovem dançava sem parar em meio às rosas do jardim da mansão, porém não notara que se perdera em imaginações. A mãe a chamava para se aprontar, pois logo começaria a primeira apresentação de Sofia no teatro da cidade, e nada poderia dar errado.
As poltronas do teatro lotavam e, muito tensa, no camarim, a bailarina vestia as sapatilhas enquanto escutou a professora conversar com um rapaz. Prontamente, os dois vieram em sua direção e Desirée apresentou o filho Thomas, cujo rosto era familiar, mas Sofia não sabia dizer de onde o conhecera. Ele também era bailarino. Disse entender o nervosismo da execução em público, afinal, apesar da excelência demonstrada no decorrer das aulas, Sofia não estava livre de cometer deslizes na dança – isso seria normal. Ela agradeceu o incentivo e despediu-se do rapaz, que lhe deu um abraço de boa-sorte.
No momento em que as cortinas do teatro se abriram, Sofia estava deitada na madeira do palco à espera do primeiro soar dançante. Ao som de Masquerade Suite, ela deu início à dança. Era a musa Terpsícore entre piruetas, saltos e deslocamentos braçais. Repetia o passo que o homem mascarado obrigara seu corpo ensanguentado a executar. Sofia, pois, recordou-se da metade do rosto do mentor de sua quase morte e deu-se conta de que ele e Thomas eram a mesma pessoa. A bailarina sentiu cortarem-lhe a corda invisível que a sustentava e caiu sobre a madeira. Ressoaram pelo teatro vozes indignadas e dotadas de preocupação. O filho da professora de dança subiu às pressas até o palco e segurou em seus braços o corpo desacordado de Sofia.
No camarim, ela despertou e viu que ao seu lado estava Thomas. Espantada, ordenou aos berros que ele saísse do local e o rapaz, sem entender a fúria repentina, deixou-a sozinha. Sofia olhou para as sapatilhas nos pés, depois para vestimenta que lhe cobria o corpo inteiro, e despiu-se. Desorientada por lembranças de um futuro incerto, a jovem pegou uma tesoura na gaveta da penteadeira, começou a recortar o calçado e, logo, também talhou a roupa do espetáculo. A figura da mulher que a levara para a viagem atemporal desfez-se no espelho do camarim e um reflexo real de Sofia surgiu, de onde jamais deveria ter saído.


Licença Creative Commons
O trabalho As antefaces da lembrança imperfeita de Alexandre Ferreira Martins foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

O poema da menina boba

Ah, é um poema não muito criativo, mas que fiz pensando em uma pessoa que, felizmente ou não, continua muito viva em meu coração.


O SONHAR DELIRANTE DE UMA VERDADE
Alexandre Ferreira Martins


Vejo seus labios
delinearem os contornos do sorriso
louco e apaixonado de uma menina
doida,
uma eterna amante das melodias
que seduzem os corações puros e também
os abandonados.
Uma menina boba
que pula de nuvem em nuvem
sonhando alto, talvez.
Só não sabe qual é o caminho certo,
de certo sabe, mas não quer dizer a si mesma
qual é.
Se é que sabe, seu destino incerto
continua caminhando livre, sem pensar nos outros
somente procurando o caminho certo
para um dia sonhar,
e sonhar,
e sonhar novamente
o sonhar livre
do sonhar pensante
do desejo delirante
de poder amar,
de verdade.

domingo, 20 de novembro de 2011

ETERNA COMPOSIÇÃO

Alexandre Ferreira Martins

E, então, com o vestido um pouco rasgado, ela subiu na canoa e começou a remar. Precisava fugir da maldita sombra que rondava sua vida. Era possível? Depois de cair e esfarelar os joelhos, ela se apresentava em um estado deplorável. No rosto, formou-se uma pequena camada de sujeira que praticamente escondia a delicadeza de sua pele. Os olhos avermelhados e o inchaço das pálpebras denunciavam os dias passados em claro. Até mesmo o brilho negro dos seus cabelos fora apagado. Entretanto, ela não se importava. Continuou remando e olhando para trás o tempo todo.
Pouco tempo depois, ela avistou a sombra flutuando, rapidamente, em sua direção. Ela arriscou e jogou-se dentro d’água. Já imersa, seus cabelos se moldaram de acordo com o movimento da água, e a pele não estava mais suja. Não demorou para o seu corpo transformar-se em líquido e, em poucos segundos, ela se mesclou à natureza. Não mais seria perseguida, estava protegida.
A mãe das mães abraçou a filha e fez dela a sua própria composição.

O meu universo...

Quem nunca sonhou em poder viver a mágica REALIDADE de alguma história? 


PARA ALÉM DAS VIDRAÇAS
Alexandre Ferreira Martins


    Meus entardeceres davam-se ao pé de uma laranjeira, no quintal de minha casa, sempre depois de papai chavear a porta do comércio de nossa família. Quando eu escutava o balançar do molho de chaves, saltava do sofá da sala e corria em direção a minha mãe a fim de pedir-lhe a toalha que usava para sentar na grama. A caminho do jardim, pegava em cima do armário da varanda o início de minhas aventuras — eram livros de uma coleção antiga de meu avô, os quais meu pai fazia questão de que a filha lesse como forma de dar continuidade a um hábito que fizera parte de sua própria infância.
    O inabitual pegou-me de surpresa no outono. Sentada sob a sombra da laranjeira, eu começara a leitura de um novo livro deixado por meu pai no mesmo lugar de sempre. Curioso foi que, ao pegar o objeto retangular, observei que possuía mais páginas do que de costume. Imaginei que papai pudesse estar incentivando-me a desenvolver a leitura, mais e mais, só que me enganei, visto que a realidade apresentada, ou melhor, a irrealidade, fora uma experiência inesquecível.
   Antes, espalhara meus cabelos por entre as raízes externas da enorme laranjeira e observara as flores que caiam, pouco a pouco, sobre a paisagem, flutuando conforme as brisas do outono surgiam. Os raios de sol batiam nas vidraças de minha casa e davam-me a impressão de que os vidros tomavam emprestado o brilho da enorme bola de fogo que se despedia ao crepúsculo. A partir daquele acontecimento, eu criava o mundo dos príncipes e princesas de meus livros, um mundo que somente eu conhecia, mas que não interagia por não fazer parte de minha realidade. Por vezes enquanto criança eu tivera reflexões pessoais — e fantasiosas — um tanto quanto curiosas para a educação à qual meus pais tanto aspiravam. Viram-me, por quase toda infância, como um protótipo de criança, provavelmente um modelo a que todos os casais deveriam orgulhar-se de socializar seus filhos. Mas de anormal nada eu tinha, ou talvez tivesse, mas não a anormalidade sinônima de prodígio a qual meus pais tanto idealizaram.
    Quando li a primeira página, senti alguém cutucar-me o braço de leve e olhei a minha volta, mas nada vi. Prossegui com a leitura e outras vezes, leves toques sobre meus ombros eram perceptíveis. Pareciam querer chamar-me a atenção, até que, ao perceber que as cutucadas não mais adiantavam, a origem de tais sensibilidades mostrou-se diante de mim bem trajado. Como na cena do livro, o estranho cavalheiro deu-me a mão e convidou-me para dançar. Eu, evidentemente, à primeira instância neguei qualquer aproximação para com aquele ser desconhecido. Apresentava as mesmas descrições que o livro há pouco dera, e pude ver que se tratava dele mesmo, era o próprio personagem intimando-me para consigo valsar.
    O misterioso homem parecia um tanto quanto perturbado ao perceber que não estava mais no universo presente nas poucas páginas lidas. Peguei o livro em mãos e fechei. De forma mágica e extraordinária, lentamente o cavalheiro desapareceu, sendo a sua mão – estendida cordialmente para comigo dançar – a última parte de si a desaparecer.
À noite, entre os lençóis de minha cama, tentava eu adormecer quando tive a ideia de procurar no escritório de meu pai o livro que ele me daria no dia seguinte. Desci até o escritório, abri a gaveta da antiga escrivaninha de madeira e lá estavam três grandes livros de brochura os quais escondi entre meu roupão; cuidadosamente, voltei ao quarto caminhando devagar para que ninguém em minha casa despertasse e descobrisse minha artimanha. Já de volta, coloquei alguns travesseiros na cabeceira da cama e sentei de forma de pudesse iniciar a leitura daquelas histórias madrugada adentro.
Não havia percebido que a janela de meu quarto ficara aberta durante a madrugada e, por isso, o resultado de minha estripulia deu-se no dia seguinte. Amanheci queimando em febre, sob os cuidados da personagem principal da única história que consegui ler aquela noite. Mamãe notou meu adormecer prolongado e logo foi até meu quarto ver como estava — encontrou-me conversando com a mulher e, desestabilizada, perguntou com quem conversava. Mal balbuciei algumas palavras e mamãe constatou meu estado. Fiquei a maior parte do dia em repouso, sendo dopada por minha mãe e sob os cuidados de papai.
Quando no horizonte o sol despedia-se para dar lugar à lua, meus pais deixaram-me sozinha no quarto por poucos minutos – tempo o suficiente para tudo acontecer. A mulher dócil estivera olhando para mim, preocupada, fazendo preces para que eu melhorasse. Por um momento me senti bem, novamente.
A personagem tirou-me da cama e segurou em minhas mãos, dizendo para que eu fosse com ela até o sótão de minha casa, e eu a segui. Lá, ela abriu a passagem que dava para o telhado e nós subimos a pequena escada. Por um minuto senti o ar fresco bater em meu rosto enquanto meus cabelos movimentavam-se ao vento e sentei-me sobre as telhas já emboloradas pelo tempo. Avistei meu pai trancando a porta de nosso comércio e, na janela da cozinha, vi mamãe tirar o avental e ir até o jardim – ela gritou para papai que não deviam deixar-me sozinha, e então ambos voltaram ao meu quarto.
Eu, vendo os algodões brancos flutuando no céu, pedi para a jovem dama que retornássemos, mas em vão. Outro personagem de minha travessura noturna apareceu no momento em que eu abria a passagem do sótão. Era um encantador cavalo alado, grande e branco. O curioso era que, montado nele, estava o mesmo cavalheiro que no dia anterior convidou-me para valsar. Aquela visão mágica, a junção de duas fascinantes histórias, fez brilhar meus pequeninos olhos. Quando percebi, estava eu quase a cair telhado abaixo – deixei-me atrair e nem dei atenção à dama que calada assistia à cena.
Abracei a brisa que de leve tocou em meu rosto e joguei meu corpo para frente, quase a cair do alto de minha casa. Então caí... eu incidi nos braços do cavalheiro que no ar me pegou. Viajamos juntos, para um lugar fantástico, um mundo que nem as palavras, em todas as línguas, conseguiriam descrever tal como é. Talvez mais do que um mundo! Eu vivo em um universo longe das idealizações surgidas em minha cabecinha infantil, quando olhava o reflexo do sol nas vidraças de casa.
Hoje sou mais do que uma menina, sou mulher. Uma mulher que ainda idealiza, sonha e tem reflexões que podem parecer fantasiosas; tenho uma vida nada comum comparada a das meninas e mulheres de meu remoto viver. Sou muito além daquela antiga realidade porque agora sim, vivo minha própria noção do real. A diferença é que não preciso da laranjeira e nem de minha cama.
Gostaria de convidar a todos para conhecerem este lugar tão fascinante, todavia não posso abrir os caminhos sem que alguém os procure. E alguma pessoa se questiona: “como procurar algo de que não se sabe a existência?”. Simples. Leia uma história, independente do título viva-a do início ao fim, amando e odiando cada letra, sílaba, palavra, frase e parágrafo. E se não entender? Releia. Eu estou ali.

Incrível experiência...

Resolvi participar de uma Oficina de Criação Literária que me fez gostar mais ainda de escrever. Pelo incrível que pareça, a inspiração para a produção do primeiro conto veio de uma grávida que vi no ônibus, enquanto voltava para casa. Intrigante, não?


















AS CINZAS DO VENTRE
Alexandre Ferreira Martins

Roberto segurou, em meio aos destroços, o pequeno porta-retratos que ficava sobre o criado mudo de seu quarto. O ambiente ainda emanava calor e as cinzas esvoaçavam em meio ao vento que anunciava uma tempestade. Aquele objeto sujo conservou a foto do casamento. Viam-se, na imagem, os noivos saindo da igreja em meio a uma chuva de pétalas de rosas. Ela delineava, trajada de um longo vestido branco, a pureza que era aparente aos olhos de todos. A fotografia estava, de fato, intacta. Depois de observar a imagem por algum tempo, uma lágrima brotou dos olhos de Roberto e escorreu pelo seu rosto até cair sobre o vidro do porta-retratos.  Coincidentemente, a lágrima veio a cair justamente sobre as mãos unidas do casal, imortalizadas na fotografia.
Quando soube da gravidez de Gabriela, Roberto entrou em um estado de felicidade plena. Estabeleceu os mais variados planos que se realizassem no decorrer da vida do filho. Já Gabriela, encontrava-se perplexa. Gabriela não compartilhava o mesmo sentimento do marido. Ela não sonhava com um futuro para aquela criança, nem ao menos queria o que em seu ventre, aos poucos, se desenvolvia.
                        Os meses passavam, e Gabriela odiava cada vez mais aquilo que para ela era somente um volume que lhe causava dores físicas. No começo, ela encarou com uma inacreditável crueldade o que para qualquer mulher seria um presente, ao passo que, ao que parecia, estava fadada a constituir uma família. Mas Gabriela não estava predestinada a ser mãe daquele filho, a educá-lo, a amá-lo incondicionalmente.
 Nos primeiros meses as alegrias de Roberto foram suportadas com a maior naturalidade possível. Gabriela atuou como uma verdadeira atriz no que, para ela tornou-se, aos poucos, uma verdadeira desgraça. Quase no sexto mês de gestação, a consciência pesou mais do que qualquer dor física devido à convivência com a família de Roberto que formava, na consciência de Gabriela, um enorme abismo no qual ela estava prestes a despencar. Passou acondenar-se pela gestação daquela criança nem um pouco bem vinda. Odiava o fato de ter que carregar no ventre um ser que, à sua mente, era desprezível.  O encargo de consciência era insuportável, isso porque a Gabriela guardava um segredo o motivo de odiar tanto a criança que realizaria o sonho do esposo: o de ser pai.
O remorso de Gabriela aumentou ainda mais a partir do momento em que Roberto passou a trazer-lhe, todos os dias, uma pequena rosa. Era uma singela demonstração que materializava na mente da mulher o horror por enganar o homem que puramente a amava; mas Gabriela também o amava talvez tenha o amado muito mais do que ele mesmo a amara. E quem sabe, por isso, a dor de Gabriela criava proporções inimagináveis.
Algumas vezes Gabriela, com uma faca, simulava movimentos de perfuração em si mesma, na região abdominal. Imaginava como seria se perfurasse, realmente, com aquele objeto, sua própria barriga. Delirando, Gabriela passava a faca de um lado para o outro, imaginando também cortes, ou um modo que pudesse se desfazer do que para ela era um fardo.
O corte profundo jorrava sangue em abundância. Todo aquele líquido de um vermelho vivo transbordava pelo abdômen de Gabriela, seguindo pelas pernas e esparramando no chão de madeira. No sofá, uma imensa poça de sangue se formou em questão de segundos ao redor de onde a cruel mãe estava sentada. Tamanha fora a perfuração que o corpo da criança ainda em formação ficou exposto em meio ao sangue – o bebê preso à mãe pelo cordão umbilical aparentava respirar com muita dificuldade. Gabriela satisfez-se com a cena que aparentemente via a sua frente...mas tudo não passava de um delírio doentio. O suor escorria pelos cabelos ruivos de Gabriela dando um aspecto oleoso à pele suave da jovem. Desatou a chorar. Ela não conseguia mais distinguir o que realmente desejava porque inconstância de sentimentos se fazia presente no coração de mãe, e mais do que isso, no coração de mulher apaixonada.
A falta de coragem dela durou pouco. Tudo aconteceu poucos dias antes do nascimento da criança. Roberto teve a ideia de fazer uma festa que precedesse o nascimento do filho, uma comemoração que reunisse toda a família. Roberto contatou a mulher sobre a ideia e ela por sua vez não pensou duas vezes, aceitou com entusiasmo.  O motivo para o ódio que parasitava o coração de Gabriela continuou ocultado.
Chovia muito naquele dia. Gabriela estava dirigindo o carro quando, próximo à casa dos sogros, ouviu um barulho vindo da capota do carro. Ela saiu e foi verificar o que havia acontecido. Quando abriu a capota, uma enorme nuvem de fumaça saiu do motor do automóvel espalhando-se por toda a volta. O carro não deu partida e Gabriela, sem sucesso, padeceu sozinha por alguns minutos.
Encharcada pela água da chuva, tocou a campainha da casa e o pai de Roberto, Gustavo, abriu a porta da residência recepcionando a nora. A sogra de Gabriela não estava em casa. Gustavo aconduziu até o seu quarto e cobriu a mulher do filho com algumas toalhas. Deixou que Gabriela pudesse usar o banheiro do quarto para banhar-se a fim de aquecer o corpo que, além de molhado, estava trêmulo de frio. Enquanto se banhava, Gabriela era observada pelo sogro que espiava a nora por uma pequena fresta da porta. Gustavo enlouqueceu. Desejou ardentemente poder agarrar o corpo nu de Gabriela e dele se deleitar. E foi o que fez. Entrou e imobilizou a jovem. Ela, no ardor do momento, não resistiu às carícias do sogro e os dois se entregaram à volúpia. No prazer do gozo, uniram os corpos e traçaram um destino comum.
Durante a festa, o sogro lançava olhares luxuriosos para Gabriela, que correspondia já tramando o pior. Com um olhar para a porta do quatro do bebê, a mulher de Roberto pronunciou muito baixo as palavras “Encontre-me lá”, e Gustavo atenciosamente leu os seus lábios e não relutou. Seguiu até o quarto do neto que na realidade era seu próprio filho e encontrou Gabriela repousada em uma poltrona. Nem mesmo a gravidez da nora fez com que ele desejasse menos pecar novamente no corpo daquela mulher. A luxúria exalava do corpo de aspecto puro e ingênuo da jovem sob o aspecto mais grotesco e desumano possível. Gustavo não se arrependia, nem ao menos por um segundo,ter cravado nas costas do próprio filho o punhal da traição. E a pior das traições possíveis fora cometida. Mas Gabriela mostrou que não era a mulher submissa que Gustavo considerava com convicção.
Um abraço selou a morte de Gustavo. Gabriela cravou-lhe no peito a mesma faca que em seus delírios imaginava penetrar em si mesma. Apertou com força a ponta do objeto contra o peito do homem. Os olhos de Gustavo saltaram das órbitas e o olhar tão penetrante quanto o próprio objeto que lhe tirava a vida fixou-se no rosto de Gabriela. Sem piedade alguma, Gabriela o esfaqueou por minutos que pareciamuma eternidade. O remorso e a angústia pareciam ter tido fim no momento em que Gabriela depositou a cabeça sobre o peito ensanguentado do homem. Os cabelos ruivos misturaram-se ao líquido escarlate... o vermelho anulava qualquer distinção daquelas duas tonalidades da cor, que pareciam ser a mesma. As lembranças dos preparativos para a festa de casamento, das rosas que cobriram os noivos na saída da igreja, dos momentos em que Gabriela considerava-se satisfeita com a própria vida,surgiram amargamente em sua mente. Por um instante sorriu, como se nada tivesse acontecido. As mãos ensanguentadas foram como um choque de realidade que a trouxeram de volta àquele crime hediondo.
Com um isqueiro, começou pelas cortinas e depois pelas cobertas da cama. Depois fez o mesmo nas roupinhas de bebê guardadas no closet que montara com o intuito de agradar o marido. Em pouco tempo as chamas se espalharam e tomaram conta do quarto inteiro. Gabriela enxergou-se no centro de um verdadeiro inferno, mas o seu semblante de indiferença com a vida e com qualquer demonstração de arrependimento a manteve paralisada. Não gritou por socorro. Sucumbiu à morte penetrando a mesma faca que usara para assassinar o homem dentro da própria barriga, verticalmente, colocando de tal forma que o objeto entrou por inteiro em seu corpo.
O pote de vidro caiu do armário no corredor dos quartos, quebrando-se e espalhando, por entre as chamas, algumas das rosas que Roberto dera à Gabriela. As pétalas das flores rapidamente viraram cinzas, assim como o abrigo do filho desprezado.

Licença Creative Commons
O trabalho As cinzas do ventre de Alexandre Ferreira Martins foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

About Us

Total Pageviews


“Via-se perfeitamente que estava viva pelo piscar constante dos olhos grandes, pelo peito magro que se levantava e abaixava em respiração talvez difícil. Mas quem sabe se ela não estaria precisando de morrer? Pois há momentos em que a pessoa está precisando de uma pequena mortezinha e sem nem ao menos saber. Quanto a mim,substituo o ato da morte por um seu símbolo. Símbolo este que pode se resumir num profundo beijo mas não na parede áspera e sim boca-a-boca na agonia do prazer que é a morte.”

Ray Templates

contador grátis

Blogger templates

Poll