AS CINZAS DO VENTRE
Alexandre Ferreira Martins
Roberto segurou, em meio aos destroços, o pequeno porta-retratos que ficava sobre o criado mudo de seu quarto. O ambiente ainda emanava calor e as cinzas esvoaçavam em meio ao vento que anunciava uma tempestade. Aquele objeto sujo conservou a foto do casamento. Viam-se, na imagem, os noivos saindo da igreja em meio a uma chuva de pétalas de rosas. Ela delineava, trajada de um longo vestido branco, a pureza que era aparente aos olhos de todos. A fotografia estava, de fato, intacta. Depois de observar a imagem por algum tempo, uma lágrima brotou dos olhos de Roberto e escorreu pelo seu rosto até cair sobre o vidro do porta-retratos. Coincidentemente, a lágrima veio a cair justamente sobre as mãos unidas do casal, imortalizadas na fotografia.
Quando soube da gravidez de Gabriela, Roberto entrou em um estado de felicidade plena. Estabeleceu os mais variados planos que se realizassem no decorrer da vida do filho. Já Gabriela, encontrava-se perplexa. Gabriela não compartilhava o mesmo sentimento do marido. Ela não sonhava com um futuro para aquela criança, nem ao menos queria o que em seu ventre, aos poucos, se desenvolvia.
Os meses passavam, e Gabriela odiava cada vez mais aquilo que para ela era somente um volume que lhe causava dores físicas. No começo, ela encarou com uma inacreditável crueldade o que para qualquer mulher seria um presente, ao passo que, ao que parecia, estava fadada a constituir uma família. Mas Gabriela não estava predestinada a ser mãe daquele filho, a educá-lo, a amá-lo incondicionalmente.
Nos primeiros meses as alegrias de Roberto foram suportadas com a maior naturalidade possível. Gabriela atuou como uma verdadeira atriz no que, para ela tornou-se, aos poucos, uma verdadeira desgraça. Quase no sexto mês de gestação, a consciência pesou mais do que qualquer dor física devido à convivência com a família de Roberto que formava, na consciência de Gabriela, um enorme abismo no qual ela estava prestes a despencar. Passou acondenar-se pela gestação daquela criança nem um pouco bem vinda. Odiava o fato de ter que carregar no ventre um ser que, à sua mente, era desprezível. O encargo de consciência era insuportável, isso porque a Gabriela guardava um segredo – o motivo de odiar tanto a criança que realizaria o sonho do esposo: o de ser pai.
O remorso de Gabriela aumentou ainda mais a partir do momento em que Roberto passou a trazer-lhe, todos os dias, uma pequena rosa. Era uma singela demonstração que materializava na mente da mulher o horror por enganar o homem que puramente a amava; mas Gabriela também o amava – talvez tenha o amado muito mais do que ele mesmo a amara. E quem sabe, por isso, a dor de Gabriela criava proporções inimagináveis.
Algumas vezes Gabriela, com uma faca, simulava movimentos de perfuração em si mesma, na região abdominal. Imaginava como seria se perfurasse, realmente, com aquele objeto, sua própria barriga. Delirando, Gabriela passava a faca de um lado para o outro, imaginando também cortes, ou um modo que pudesse se desfazer do que para ela era um fardo.
O corte profundo jorrava sangue em abundância. Todo aquele líquido de um vermelho vivo transbordava pelo abdômen de Gabriela, seguindo pelas pernas e esparramando no chão de madeira. No sofá, uma imensa poça de sangue se formou em questão de segundos ao redor de onde a cruel mãe estava sentada. Tamanha fora a perfuração que o corpo da criança ainda em formação ficou exposto em meio ao sangue – o bebê preso à mãe pelo cordão umbilical aparentava respirar com muita dificuldade. Gabriela satisfez-se com a cena que aparentemente via a sua frente...mas tudo não passava de um delírio doentio. O suor escorria pelos cabelos ruivos de Gabriela dando um aspecto oleoso à pele suave da jovem. Desatou a chorar. Ela não conseguia mais distinguir o que realmente desejava porque inconstância de sentimentos se fazia presente no coração de mãe, e mais do que isso, no coração de mulher apaixonada.
A falta de coragem dela durou pouco. Tudo aconteceu poucos dias antes do nascimento da criança. Roberto teve a ideia de fazer uma festa que precedesse o nascimento do filho, uma comemoração que reunisse toda a família. Roberto contatou a mulher sobre a ideia e ela por sua vez não pensou duas vezes, aceitou com entusiasmo. O motivo para o ódio que parasitava o coração de Gabriela continuou ocultado.
Chovia muito naquele dia. Gabriela estava dirigindo o carro quando, próximo à casa dos sogros, ouviu um barulho vindo da capota do carro. Ela saiu e foi verificar o que havia acontecido. Quando abriu a capota, uma enorme nuvem de fumaça saiu do motor do automóvel espalhando-se por toda a volta. O carro não deu partida e Gabriela, sem sucesso, padeceu sozinha por alguns minutos.
Encharcada pela água da chuva, tocou a campainha da casa e o pai de Roberto, Gustavo, abriu a porta da residência recepcionando a nora. A sogra de Gabriela não estava em casa. Gustavo aconduziu até o seu quarto e cobriu a mulher do filho com algumas toalhas. Deixou que Gabriela pudesse usar o banheiro do quarto para banhar-se a fim de aquecer o corpo que, além de molhado, estava trêmulo de frio. Enquanto se banhava, Gabriela era observada pelo sogro que espiava a nora por uma pequena fresta da porta. Gustavo enlouqueceu. Desejou ardentemente poder agarrar o corpo nu de Gabriela e dele se deleitar. E foi o que fez. Entrou e imobilizou a jovem. Ela, no ardor do momento, não resistiu às carícias do sogro e os dois se entregaram à volúpia. No prazer do gozo, uniram os corpos e traçaram um destino comum.
Durante a festa, o sogro lançava olhares luxuriosos para Gabriela, que correspondia já tramando o pior. Com um olhar para a porta do quatro do bebê, a mulher de Roberto pronunciou muito baixo as palavras “Encontre-me lá”, e Gustavo atenciosamente leu os seus lábios e não relutou. Seguiu até o quarto do neto que na realidade era seu próprio filho e encontrou Gabriela repousada em uma poltrona. Nem mesmo a gravidez da nora fez com que ele desejasse menos pecar novamente no corpo daquela mulher. A luxúria exalava do corpo de aspecto puro e ingênuo da jovem sob o aspecto mais grotesco e desumano possível. Gustavo não se arrependia, nem ao menos por um segundo,ter cravado nas costas do próprio filho o punhal da traição. E a pior das traições possíveis fora cometida. Mas Gabriela mostrou que não era a mulher submissa que Gustavo considerava com convicção.
Um abraço selou a morte de Gustavo. Gabriela cravou-lhe no peito a mesma faca que em seus delírios imaginava penetrar em si mesma. Apertou com força a ponta do objeto contra o peito do homem. Os olhos de Gustavo saltaram das órbitas e o olhar tão penetrante quanto o próprio objeto que lhe tirava a vida fixou-se no rosto de Gabriela. Sem piedade alguma, Gabriela o esfaqueou por minutos que pareciamuma eternidade. O remorso e a angústia pareciam ter tido fim no momento em que Gabriela depositou a cabeça sobre o peito ensanguentado do homem. Os cabelos ruivos misturaram-se ao líquido escarlate... o vermelho anulava qualquer distinção daquelas duas tonalidades da cor, que pareciam ser a mesma. As lembranças dos preparativos para a festa de casamento, das rosas que cobriram os noivos na saída da igreja, dos momentos em que Gabriela considerava-se satisfeita com a própria vida,surgiram amargamente em sua mente. Por um instante sorriu, como se nada tivesse acontecido. As mãos ensanguentadas foram como um choque de realidade que a trouxeram de volta àquele crime hediondo.
Com um isqueiro, começou pelas cortinas e depois pelas cobertas da cama. Depois fez o mesmo nas roupinhas de bebê guardadas no closet que montara com o intuito de agradar o marido. Em pouco tempo as chamas se espalharam e tomaram conta do quarto inteiro. Gabriela enxergou-se no centro de um verdadeiro inferno, mas o seu semblante de indiferença com a vida e com qualquer demonstração de arrependimento a manteve paralisada. Não gritou por socorro. Sucumbiu à morte penetrando a mesma faca que usara para assassinar o homem dentro da própria barriga, verticalmente, colocando de tal forma que o objeto entrou por inteiro em seu corpo.
O pote de vidro caiu do armário no corredor dos quartos, quebrando-se e espalhando, por entre as chamas, algumas das rosas que Roberto dera à Gabriela. As pétalas das flores rapidamente viraram cinzas, assim como o abrigo do filho desprezado.

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