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sábado, 26 de novembro de 2011

O ACORDO DA NATUREZA

Alexandre Ferreira Martins

As roupas suspensas no varal batiam umas contra as outras, e Joana permanecia repousada no pequeno banco de madeira, desenhando algo para dar de aniversário ao pai. Os raios de sol incidiam contra o estojo de metal e desenhavam no rosto de rapariga as curvas da luz. Assim ficara a face de Joana, entre luzes e sombras, invenções da natureza que entrara em conflito hostil sobre a tênue e infante pele de menina.
As roupas suspensas no varal batiam umas contra as outras e Joana permanecia repousada no banco de madeira, linearizando aquarelas de um quadro para dar de aniversário ao pai. Os raios de sol incidiam sobre a moldura metalizada do quadro e desenhavam no rosto da mulher as curvas da luz. Assim ficara a face de Joana, entre luzes e sombras, invenções da natureza que entrara em conflito hostil sobre a tênue e feminil pele de mulher.
As roupas suspensas no varal batiam umas contra as outras, e Joana permanecia repousada no banco de madeira, na varanda de casa, concluindo um elegantíssimo terno que fizera para dar de aniversário ao pai. Os raios de sol incidiam contra as agulhas depositadas na mesa e desenhavam no rosto de mãe e filha, as curvas da luz. Assim ficara a face de Joana, entre luzes e sombras, invenções da natureza que entrara em conflito hostil sobre a tênue e senil pele de mulher.
As roupas suspensas no varal batiam umas contra as outras, e Joana permanecia repousada na cama, dentro do quarto, sob os cuidados das duas filhas, concluindo uma prece espiritual para a alma do pai. Os raios de sol que incidiam contra a maçaneta da porta do quarto desenhavam no rosto de mãe, de filha e de avó, as curvas da luz. Assim ficara a face de Joana, entre luzes e sombras, invenções da natureza que entrara em conflito hostil sobre a tênue e anciã pele de mulher.
As roupas suspensas nos cabides, dentro do guarda-roupa, ficaram imóveis e Joana permanecia repousada sobre aquela enorme caixa, debaixo da terra, sucumbindo ao destino humano e comum. Os raios de sol incidiam contra o estojo, contra a moldura metalizada, contra as agulhas depositadas e contra a maçaneta agora trancada. Não mais desenhavam curvas da luz em objeto ou ser algum. Assim fora o fim de Joana, entre o escuro e somente o escuro, invenção da natureza que entrara em acordo, que solucionara o conflito, sobre a tênue e humana pele de mulher.

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“Via-se perfeitamente que estava viva pelo piscar constante dos olhos grandes, pelo peito magro que se levantava e abaixava em respiração talvez difícil. Mas quem sabe se ela não estaria precisando de morrer? Pois há momentos em que a pessoa está precisando de uma pequena mortezinha e sem nem ao menos saber. Quanto a mim,substituo o ato da morte por um seu símbolo. Símbolo este que pode se resumir num profundo beijo mas não na parede áspera e sim boca-a-boca na agonia do prazer que é a morte.”

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