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domingo, 20 de novembro de 2011

ETERNA COMPOSIÇÃO

Alexandre Ferreira Martins

E, então, com o vestido um pouco rasgado, ela subiu na canoa e começou a remar. Precisava fugir da maldita sombra que rondava sua vida. Era possível? Depois de cair e esfarelar os joelhos, ela se apresentava em um estado deplorável. No rosto, formou-se uma pequena camada de sujeira que praticamente escondia a delicadeza de sua pele. Os olhos avermelhados e o inchaço das pálpebras denunciavam os dias passados em claro. Até mesmo o brilho negro dos seus cabelos fora apagado. Entretanto, ela não se importava. Continuou remando e olhando para trás o tempo todo.
Pouco tempo depois, ela avistou a sombra flutuando, rapidamente, em sua direção. Ela arriscou e jogou-se dentro d’água. Já imersa, seus cabelos se moldaram de acordo com o movimento da água, e a pele não estava mais suja. Não demorou para o seu corpo transformar-se em líquido e, em poucos segundos, ela se mesclou à natureza. Não mais seria perseguida, estava protegida.
A mãe das mães abraçou a filha e fez dela a sua própria composição.

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“Via-se perfeitamente que estava viva pelo piscar constante dos olhos grandes, pelo peito magro que se levantava e abaixava em respiração talvez difícil. Mas quem sabe se ela não estaria precisando de morrer? Pois há momentos em que a pessoa está precisando de uma pequena mortezinha e sem nem ao menos saber. Quanto a mim,substituo o ato da morte por um seu símbolo. Símbolo este que pode se resumir num profundo beijo mas não na parede áspera e sim boca-a-boca na agonia do prazer que é a morte.”

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