A ideia de escrever este conto veio depois de eu reencontrar uma amiga muito especial. Tento passar exatamente o que desejo para a vida dela... que viva entre as brisas da felicidade. Isso porque ela mesma me ensinou que é possível estampar um sorriso mesmo quando as lágrimas seriam "normais".
A história não espelha a realidade, mas reflete um sentimento comum, um sentimento muito humano: a vontade de viver.
A história não espelha a realidade, mas reflete um sentimento comum, um sentimento muito humano: a vontade de viver.
Alexandre Ferreira Martins
Bagunça para todo lado. As caixas lotavam o quarto de Natália de modo que não se enxergava mais onde ficava a porta do cômodo. A menina meiga e delicada, com linhas suaves que lhe desenhavam belas formas faciais, corria de um lado para o outro, procurando pelo livro predileto. Era verão, mas, evidentemente, a menina que amava ler precisava levar consigo um amigo para apresentar aos seus castelinhos de areia.
Em meio ao papelão, deitou-se e respirou fundo. Um sorriso estampado, que ia de orelha a orelha, moldava em seu rosto a mais admirável personificação da alegria. “Finalmente, férias!”, ela pensou. E depois de um ano escolar muito agitado, repleto de provas e trabalhos que pareciam não ter fim, ela então poderia descansar, deitada em uma espreguiçadeira tomando seu suco de uva com algumas pedrinhas de gelo. Ah, mas é claro, não se pode esquecer do canudinho. Nas férias, sentindo a brisa do mar, Natália era uma autêntica preguiçosa.
Nem mesmo queria saber do piano. E olha que a menina do rosto bem desenhado era uma excelente pianista - desde pequenina, Natália acompanhava seus pais nos concertos da orquestra de sua cidade, e era apaixonada pelo som delicado que vinha do imenso instrumento negro, o piano. As notas musicais acariciavam as orelhinhas de Natália de modo que ela soltava risos conforme a música se apresentava; lembravam as carícias de vovó, a quem Natália amava tanto, mas que por ironia do destino, cedo partira. Apaixonou-se pela música e logo aprendeu as primeiras notas. Quando seus pais perceberam, Natália tocava brilhantemente as partituras natalinas.
Mas o Natal já havia passado, e a mãe de Natália batia sem parar a buzina do carro, do lado de fora da casa. A menina saltou do chão, colocou todos os objetos na mochila e saiu correndo em direção à escada. Quando já estava terminando de descer os enormes degraus, deu-se por falta do livro. Natália voltou e, por sorte, avistou o objeto perdido em cima de seu sapateiro. Sucesso. Havia encontrado o amigo.
Natália foi correndo em direção ao automóvel enquanto observava o céu nublado, que anunciava uma tempestade. Ofegante, com os dedinhos sobre a maçaneta, abriu a porta do carro e entrou. Aconchegou-se no estofado e acariciou o irmão, ainda bebê, que a contemplou retribuindo-lhe um gracioso sorriso. “Vamos lá, garotada?”, disse a mãe entusiasmada, movimentando o retrovisor de forma que pudesse observar as duas crianças no decorrer da viagem. Visto que alguns pingos de chuva começavam a cair, os vidros das janelas foram fechados. Deu-se inicio à diversão.
O piano começou a tocar como um som de fundo, na escuridão. Viu-se um ponto de luz. Natália não conseguia compreender o que havia acontecido, apenas continuava a escutar a música sem fim. De repente da escuridão fez-se a luz e os olhos da menina reagiram à claridade. Novamente veio a escuridão. Sentiu que a amarravam e que seu corpo estava sendo transportado de um lugar para o outro, com poucas interrupções. Pouco a pouco, ela começou a escutar vozes, e de uma hora para outra passou a perceber claramente o que cada uma das vozes dizia. Foi um susto porque não apreendia o que havia acontecido, apenas acomodou-se e esperou que aquele sonho estranho acabasse.
Um som que se repetia e vozes que Natália não reconhecia. Dedos acariciando seu rosto, pessoas desejando-lhe forças, fazendo preces, percepções que ela não entendia. Passaram-se dias, e ela não conseguia escutar a voz de sua mãe e os pedaços de palavras de seu irmão; chorava, mesmo que suas lágrimas não fossem visíveis aos donos de todas aquelas vozes. A menina conviveu com a saudade, com a vontade de poder se mover, com a vontade de poder abrir os olhos e enxergar todas as pessoas que a tratavam carinhosamente. Mesmo não entendendo, Natália procurou em seu “eu” as respostas das quais precisava. Não encontrou. Sua alma debulhou em lágrimas.
Em pensamentos, a menina conseguia projetar-se em seu quarto, deitada em meio às caixas de papelão, sonhando novamente, voltando instantes antes daquela constante incompreensão. De um lado enxergava o seu piano, lustrado, de um negro vivo e reluzente; do outro lado via a cama macia, com a colcha rosa que ganhara de vovó, feita a mão, escrito “Durma bem meu anjinho” em letras prateadas. E as vozes, vivas como nunca, pareciam circular a sua volta, unindo-se ao som do piano numa bela canção.
As preces tornaram-se cânticos angelicais e as vozes misturavam-se aos cânticos de maneira que Natália sentia a mesma sensação que sentira ao assistir pela primeira vez a orquestra de sua cidade: sentiu-se viva. A música entrava em sua alma e saciava a vontade da menina de poder se comunicar, de se movimentar, de poder de fato viver no conceito mais usual da palavra. Mas estaria ela viva se pudesse andar, falar e compreender? Natália passou a criar, mesmo tão pequenina, o seu próprio conceito de vida.
Uma voz grossa e familiar soou nos ouvidos da pianista, e logo ela reconheceu que se tratava de seu pai. Imediatamente, Natália sentiu vontade de saltar da cama em que estava deitada e abraçar o pai. O medo era grande, estava perdida em algo que parecia ser um sonho, mas não era - até mesmo porque Natália sabia que sonhos não duravam tanto tempo. “Querida, eu estou aqui e ficarei ao seu lado até tudo isso acabar”, disse, com a voz trêmula, o pai de Natália. E as palavras abrigaram a alma da pequenina, como se a alma do pai a pegasse nos braços e, fortemente, a abraçasse. O calor paterno podia ser sentido, e a felicidade abria, depois de tantas incompreensões, uma janela na alma da pianista. Outra melodia dava lugar àquela que parecia não ter fim.
Piscou uma vez. Piscou duas, três. A visão um pouco turva misturava as cores dos objetos e não deixava que ela conseguisse distinguir tudo ao seu redor. Alguns minutos após, a careca de papai era visível. Depois, as flores em suas mãos tomavam, pouco a pouco, suas devidas formas e cores. As voltas do laço de fita que envolvia as flores igualmente tomavam forma, assim como a nitidez do tom claro de rosa, a cor preferida da criança. As flores foram depositadas sobre o colo de Natália, que queria poder apalpá-las e aspira-las, mas não conseguia. Alguma força maior prendia os braços e as pernas da menina. Parecia que as mãos dos gigantes - daqueles gigantes, das histórias que escutara na escola - estavam prendendo seus braços entre as cobertas da cama.
“Som” foi a primeira palavra pronunciada por Natália depois de alguns meses em casa. A mãe e o irmão não apareceram no tempo em que a menina esteve deitada, em seu quarto reformado. Não mais havia caixas. Agora as paredes rosas estavam decoradas com adesivos de notas musicais, o armário e a estante foram trocados, os livros organizados da mesma forma que ela deixara, e o belíssimo piano, como sempre estava lá, à espera da pequena pianista, intacto no mesmo canto. Por vezes, Natália virava o rosto para janela do quarto e esperava que pudesse enxergar a mãe embalando seu irmãozinho no balanço do jardim. Não os avistou, porque eles não estavam lá. Nunca mais estiveram, e Natália começou a assimilar que talvez não os visse mais. Chorou, de verdade, depois de muito tempo - esse choro sim era visível, externo. O pai de Natália escutou a voz da filha que gritava desesperada pela mãe e pelo irmão.
Era primavera. A grama ainda estava um pouco molhada quando o pai de Natália a deixou ao lado de uma árvore para comprar algodão doce. Ela observou as gotas de chuva no chão e, quando percebeu, uma pequena folha caíra da árvore em suas mãos. O sopro de um vento repentino levou para longe o chapéu da menina e deixou a sua cabeça, que não mais abrigava seus longos fios de cabelo, à mostra. Natália se envergonhou. Sentia falta de alisar os cabelos com os dedos assim como do passa-tempo de penteá-los em frente ao espelho do quarto. Sentia falta das longas madeixas que agora demorariam a crescer.
Suas mãos ainda não obedeciam aos comandos da mente - um pequeno objeto de silicone as deixava entreabertas para que não atrofiassem. Uma vaga lembrança dos movimentos que executava ao piano começava a surgir, doce recordação que ela não sabia responder se um dia viria a repetir. Mas o sopro não arrastou somente o chapéu de Natália. A folha também se movimentou. Foi nesse momento que a menina, pela primeira vez depois tanto tempo, conseguiu movimentar os dedos no impulso de tentar agarrar a folha. Com dois algodões-doces, um rosa e outro amarelo, envolvidos por um enorme plástico, retornou o pai de Natália. Pregados ao plástico do algodão rosa estavam uma flor de brinquedo e um papel com algo escrito. Com a voz meiga, o pai começou a ler, devagar, a pequena mensagem:
“Sou como você me vê.
Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania.
Depende de quando e como você me vê passar.”
Encantamento. As palavras daquele autor, ou autora, tocaram seu coração como nenhuma outra palavra tocara desde que a incompreensão se fez presente em sua vida. Para a menina, a fonte ou contexto original daquelas palavras não importavam, mas sim o modo como tal mensagem era aplicável à sua realidade. A superação não dependia somente da ajuda do pai ou dos médicos que diariamente a auxiliavam, mas dependia dela mesma. Uma nova melodia passou a tocar em sua mente, desta vez iluminando as idéias, de forma que Natália deixou de lado a tristeza para dar lugar à motivação.
Aquela tarde primaveril fez surgir ventanias na vida de Natália. Voltando para casa, os dois presenciaram uma batida de carro e a menina viu o exato momento em que o vidro da parte traseira de um dos automóveis despedaçou, caindo em mil pedaços sobre o asfalto da rua. Os cacos refletiram a luz do sol, que mais pareciam labaredas. As pálpebras de Natália fecharam e uma lembrança, aparentemente apagada da memória, atingiu-a como um choque em meio a uma tempestade.
“Eu estou aqui”, foi o que a menina escutou de uma voz familiar. De algum modo, ela pode ver a cena que era criada à sua frente. Estava frio e ventava muito. A chuva arrastada pelo vento intenso batia nos vidros do carro como se fosse quebrá-los, tamanha era a força com que se lançavam as gotas. As árvores se movimentavam com tanta agilidade pelo vento que algumas delas estavam com os troncos deslocados, quase sendo inteiramente arrancadas do terreno. E uma das árvores caiu.
Na tentativa de esquivar-se do enorme obstáculo, a mãe de Natália desviou e o automóvel caiu em um enorme barranco. Doze foi o número de voltas que o veículo deu no ar, batendo no solo a cada volta dada. A menina escutou os gritos até a quinta volta, quando as vozes cessaram. Cansaço? Não. Desesperada, Natália projetou-se em frente ao carro, tentando pará-lo. Não conseguiu. Queria poder ajudar, mas algo a impedia; seus dedos ultrapassaram a porta amassada e depois o estofado da parte traseira. Não enxergou o irmão e a mãe estava irreconhecível. A pianista viu sua cabeça encostada no vidro da janela do automóvel e o sangue escorrendo de sua testa, deixando o rosto quase por inteiro coberto. O líquido rubro formava linhas irregulares na pele clara da pequena, desenhando em seu rosto as raízes de uma tragédia.
De repente, pessoas começaram a retirá-la do carro, bem como a sua mãe e depois ao irmão, que foi parar embaixo do banco do motorista. Estava muito escuro, mas logo chegou uma ambulância iluminando com os faróis todo o espaço. Fechada a porta do socorro, novamente veio a escuridão. A partir desse momento, Natália compreendeu tudo o que acontecera, principalmente depois de escutar de um dos paramédicos “Ela está em coma, já a mãe e o irmão morreram no local”. Inesperado, como um despertar, o carro do acidente entrou em chamas e explodiu.
Ele estava à sua frente esperando que abrisse novamente os olhos. O pai viu as lágrimas descendo pelas bochechas rosadas da menina, e também chorou. Abaixou-se ao nível da cadeira de rodas na qual a filha estava sentada e abraçou-a. Enfim, Natália contou ao pai que se lembrava do acidente e que agora compreendia o porquê de sua situação.
Todas as sensações e sentimentos que se precederam ao primeiro abrir de olhos da menina faziam sentido. Natália passou um longo período em coma e, mesmo aparentando nada ouvir ou sentir, ela estava lá. Conseguia escutar cada palavra e sentir cada toque sobre seu corpo. Mas e as músicas que pararam e outras que começaram a tocar? Era a consciência entre brisas e ventanias. “Sou como você me vê”, ela pensou. Precisava ser como ela mesma queria se ver, independente de suas condições, independente da falta de movimentos ou da limitação prosódica. “Superação”, ela pensou. Era necessário que ela superasse os obstáculos que a vida estava lhe impondo, aprendendo a viver do seu jeito; eram as suas reais condições e ela não podia mais sofrer com aquilo, isso só deteriorava a mente e o coração. É evidente que Natália sabia o quanto todos se esforçavam para ela se recuperar ao máximo, desde o pai à fisioterapeuta, ao fonoaudiólogo... todos contribuíam para que se sentisse bem e pudesse viver entre as brisas da felicidade. Todavia, a mente da pianista era uma inconstância. Vivia entre brisas e ventanias, puramente produtos do imaginário de um pequenino ser, obrigado ainda tão jovem a conviver com uma difícil realidade.
De novo, chegou o verão. Não mais havia a bagunça do verão passado, tudo estava organizado. As caixas foram colocadas no lixo, os antigos cômodos vendidos a uma loja de móveis usados e a porta, com a placa “Meu quartinho” pendurada, perfeitamente visível, não mais estava coberta pelo papelão. O quarto estava impecável. Natália orgulhou-se, mesmo não tendo feito o trabalho braçal, foi ela quem orientou a moça da limpeza para que tudo ficasse do jeitinho que ela gostava. Quando saiu do hospital o quarto estava belo, mas não como ela desejava.
Dessa vez, Natália finalmente levaria o amigo para apresentar aos castelinhos de areia. Não os seus, mas os de seus outros amigos porque ela não mais conseguiria construí-los com as próprias mãos. Isso era o de menos. Ela queria mostrar o quão belas eram as obras primas que ela e seus amigos faziam durante o veraneio. Com certeza todos a ajudariam na empreitada.
A caminho da praia, sentada no banco de trás do carro e acordando de um delicioso cochilo, Natália olhou pelo vidro da janela as paisagens que se criavam durante a viagem. Árvores e mais árvores iam ficando para trás, e ela não mais via o vento movimentando brutamente os galhos, nem mesmo presenciou uma árvore ser arrancada do solo. As nuvens brancas movimentavam-se em meio à imensidão azul do céu, e o sol cheio de vontade de brilhar fazia com que o dia fosse perfeito para a construção dos castelinhos de areia.
Quando chegaram à praia, o pai de Natália colocou um guarda-sol nas areias e abriu a espreguiçadeira. Sobre ela, Natália deitou enquanto os amigos faziam o primeiro castelo, e ela opinava em tudo! Em um pedaço de papel, desenhou algumas notas musicais e pediu aos amigos que as desenhassem na areia, depois que todos os castelos já estivessem finalizados. Todo aquele projeto coordenado por ela foi aplaudido pelos colegas. “Ótimo resultado”, disse um dos pequenos operários. Natália alegrou-se, e ficou imensamente grata aos amigos, pois finalmente pode mostrar ao livro predileto os castelos que a deixavam muito contente. De súbito, as crianças se juntaram em volta de Natália e abraçaram-na, em um gentil gesto de amizade. A pianista sentiu-se agraciada por poder contar com a ajuda de todos e, mais ainda, por agradecerem a ela por algo que, aparentemente, pouco fez. Lembrou-se da primeira apresentação da escola, na qual todos aplaudiram seu desempenho ao piano e também onde, pela primeira vez, mostrou com intensidade a sua maior paixão aos pais.
Natália fechou os olhos e ouviu a música na presente lembrança, que estava mais viva do que nunca. As notas imaginárias acariciaram suas orelhinhas - era o carinho da avó e também a viva lembrança dos sorrisos da mãe e do irmão. Não queria mais a tristeza em lembrar-se das pessoas que amava tanto, nem mesmo a aflição de não poder voltar a ser como era antes. Natália, enfim, sorriu entre brisas, livre de qualquer consternação que a prendesse em meio a ventanias.

O trabalho Entre brisas e ventanias de Alexandre Ferreira Martins foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição 3.0 Não Adaptada.


"Finalmente, férias!"
ResponderExcluirHum... Que sonho!