PARA ALÉM DAS VIDRAÇAS
Alexandre Ferreira Martins
Meus entardeceres davam-se ao pé de uma laranjeira, no quintal de minha casa, sempre depois de papai chavear a porta do comércio de nossa família. Quando eu escutava o balançar do molho de chaves, saltava do sofá da sala e corria em direção a minha mãe a fim de pedir-lhe a toalha que usava para sentar na grama. A caminho do jardim, pegava em cima do armário da varanda o início de minhas aventuras — eram livros de uma coleção antiga de meu avô, os quais meu pai fazia questão de que a filha lesse como forma de dar continuidade a um hábito que fizera parte de sua própria infância.
O inabitual pegou-me de surpresa no outono. Sentada sob a sombra da laranjeira, eu começara a leitura de um novo livro deixado por meu pai no mesmo lugar de sempre. Curioso foi que, ao pegar o objeto retangular, observei que possuía mais páginas do que de costume. Imaginei que papai pudesse estar incentivando-me a desenvolver a leitura, mais e mais, só que me enganei, visto que a realidade apresentada, ou melhor, a irrealidade, fora uma experiência inesquecível.
Antes, espalhara meus cabelos por entre as raízes externas da enorme laranjeira e observara as flores que caiam, pouco a pouco, sobre a paisagem, flutuando conforme as brisas do outono surgiam. Os raios de sol batiam nas vidraças de minha casa e davam-me a impressão de que os vidros tomavam emprestado o brilho da enorme bola de fogo que se despedia ao crepúsculo. A partir daquele acontecimento, eu criava o mundo dos príncipes e princesas de meus livros, um mundo que somente eu conhecia, mas que não interagia por não fazer parte de minha realidade. Por vezes enquanto criança eu tivera reflexões pessoais — e fantasiosas — um tanto quanto curiosas para a educação à qual meus pais tanto aspiravam. Viram-me, por quase toda infância, como um protótipo de criança, provavelmente um modelo a que todos os casais deveriam orgulhar-se de socializar seus filhos. Mas de anormal nada eu tinha, ou talvez tivesse, mas não a anormalidade sinônima de prodígio a qual meus pais tanto idealizaram.
Quando li a primeira página, senti alguém cutucar-me o braço de leve e olhei a minha volta, mas nada vi. Prossegui com a leitura e outras vezes, leves toques sobre meus ombros eram perceptíveis. Pareciam querer chamar-me a atenção, até que, ao perceber que as cutucadas não mais adiantavam, a origem de tais sensibilidades mostrou-se diante de mim bem trajado. Como na cena do livro, o estranho cavalheiro deu-me a mão e convidou-me para dançar. Eu, evidentemente, à primeira instância neguei qualquer aproximação para com aquele ser desconhecido. Apresentava as mesmas descrições que o livro há pouco dera, e pude ver que se tratava dele mesmo, era o próprio personagem intimando-me para consigo valsar.
O misterioso homem parecia um tanto quanto perturbado ao perceber que não estava mais no universo presente nas poucas páginas lidas. Peguei o livro em mãos e fechei. De forma mágica e extraordinária, lentamente o cavalheiro desapareceu, sendo a sua mão – estendida cordialmente para comigo dançar – a última parte de si a desaparecer.
À noite, entre os lençóis de minha cama, tentava eu adormecer quando tive a ideia de procurar no escritório de meu pai o livro que ele me daria no dia seguinte. Desci até o escritório, abri a gaveta da antiga escrivaninha de madeira e lá estavam três grandes livros de brochura os quais escondi entre meu roupão; cuidadosamente, voltei ao quarto caminhando devagar para que ninguém em minha casa despertasse e descobrisse minha artimanha. Já de volta, coloquei alguns travesseiros na cabeceira da cama e sentei de forma de pudesse iniciar a leitura daquelas histórias madrugada adentro.
Não havia percebido que a janela de meu quarto ficara aberta durante a madrugada e, por isso, o resultado de minha estripulia deu-se no dia seguinte. Amanheci queimando em febre, sob os cuidados da personagem principal da única história que consegui ler aquela noite. Mamãe notou meu adormecer prolongado e logo foi até meu quarto ver como estava — encontrou-me conversando com a mulher e, desestabilizada, perguntou com quem conversava. Mal balbuciei algumas palavras e mamãe constatou meu estado. Fiquei a maior parte do dia em repouso, sendo dopada por minha mãe e sob os cuidados de papai.
Quando no horizonte o sol despedia-se para dar lugar à lua, meus pais deixaram-me sozinha no quarto por poucos minutos – tempo o suficiente para tudo acontecer. A mulher dócil estivera olhando para mim, preocupada, fazendo preces para que eu melhorasse. Por um momento me senti bem, novamente.
A personagem tirou-me da cama e segurou em minhas mãos, dizendo para que eu fosse com ela até o sótão de minha casa, e eu a segui. Lá, ela abriu a passagem que dava para o telhado e nós subimos a pequena escada. Por um minuto senti o ar fresco bater em meu rosto enquanto meus cabelos movimentavam-se ao vento e sentei-me sobre as telhas já emboloradas pelo tempo. Avistei meu pai trancando a porta de nosso comércio e, na janela da cozinha, vi mamãe tirar o avental e ir até o jardim – ela gritou para papai que não deviam deixar-me sozinha, e então ambos voltaram ao meu quarto.
Eu, vendo os algodões brancos flutuando no céu, pedi para a jovem dama que retornássemos, mas em vão. Outro personagem de minha travessura noturna apareceu no momento em que eu abria a passagem do sótão. Era um encantador cavalo alado, grande e branco. O curioso era que, montado nele, estava o mesmo cavalheiro que no dia anterior convidou-me para valsar. Aquela visão mágica, a junção de duas fascinantes histórias, fez brilhar meus pequeninos olhos. Quando percebi, estava eu quase a cair telhado abaixo – deixei-me atrair e nem dei atenção à dama que calada assistia à cena.
Abracei a brisa que de leve tocou em meu rosto e joguei meu corpo para frente, quase a cair do alto de minha casa. Então caí... eu incidi nos braços do cavalheiro que no ar me pegou. Viajamos juntos, para um lugar fantástico, um mundo que nem as palavras, em todas as línguas, conseguiriam descrever tal como é. Talvez mais do que um mundo! Eu vivo em um universo longe das idealizações surgidas em minha cabecinha infantil, quando olhava o reflexo do sol nas vidraças de casa.
Hoje sou mais do que uma menina, sou mulher. Uma mulher que ainda idealiza, sonha e tem reflexões que podem parecer fantasiosas; tenho uma vida nada comum comparada a das meninas e mulheres de meu remoto viver. Sou muito além daquela antiga realidade porque agora sim, vivo minha própria noção do real. A diferença é que não preciso da laranjeira e nem de minha cama.
Gostaria de convidar a todos para conhecerem este lugar tão fascinante, todavia não posso abrir os caminhos sem que alguém os procure. E alguma pessoa se questiona: “como procurar algo de que não se sabe a existência?”. Simples. Leia uma história, independente do título viva-a do início ao fim, amando e odiando cada letra, sílaba, palavra, frase e parágrafo. E se não entender? Releia. Eu estou ali.

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